Black Mirror: as três temporadas

blackmirror1Inicialmente produzida pela TV britânica, Black Mirror ganhou sobrevida no Netflix e conquistou todo um novo público graças ao hype da plataforma. Mas o hype realmente se sustenta? Sim e não.

Sim porque os episódios isolados que lançam um olhar sobre a relação entre humanidade e tecnologia são realmente bem dirigidos, tensos e atuais. Como toda antologia, existem episódios melhores e outros mais fracos, mas nenhum chega a ser ruim. O fato da série não ter grandes nomes por trás das câmeras (o diretor mais conhecido de um ep é Joe Wright, de “Orgulho & Preconceito” e “Desejo & Reparação”) e astros no elenco (apenas rostos mais ou menos conhecidos como Jon Hamm, Bryce Dallas Howard, Kelly MacDonald, Gugu Mbatha-Raw, Domhnall Gleeson, etc.) ainda ajuda a não gerar distrações em relação ao tema dos episódios.

Mas ao contrário de toda a discussão gerada pela série, não dá pra negar que muito do que ela traz como novidade, na verdade, remete a vários outros produtos de ficção científica. “Blade Runner”, “Ela”, “O Show de Truman”, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, “The Final Cut” e “Gattaca” são, por exemplo, algumas das referências da série. Não que isso seja realmente um defeito, mas limita um pouco essa ideia de pioneirismo que muita gente atribui à antologia, mesmo sem diminuir o seu impacto.

De uma forma ou de outra, a série não é para os fracos, e praticamente todos os episódios adotam um tom apocalíptico em relação à nossa relação com a tecnologia. Neles, somos obcecados por nossos smartphones, preocupados com nossa imagem nas redes sociais e/ou avatares e dependentes do acesso à memória, por exemplo, sendo vários elementos já muito parecidos com a nossa realidade atual.

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Eis minha ordem preferência de episódios das três temporadas já lançadas:

Hino Nacional – S01E01: Não sei se é porque foi o primeiro episódio que eu vi, mas também por ser um dos mais críveis de já acontecerem, acho esse o melhor da série. A trama sobre um Primeiro Ministro que é chantageado a fazer uma coisa degradante ao vivo em rede nacional na TV é tensa e levanta uma série de questões sobre a falta de empatia do ser humano, além de pincelar pontos sobre ética jornalista e a influência que as redes sociais exercem atualmente.

Urso Branco – S02E02: Esse episódio que remete a um “Feitiço do Tempo” bizarro é um horror que mostra a atual obsessão da humanidade pela registro da imagem, não importa o tipo de imagem. O capítulo também discute a falta de empatia do ser humano e nossa propensão a aceitar a tortura psicológica como algo válido. É, de longe, o mais deprimente e impactante.

Odiados pela Nação – S03E06: O episódio mais longa da série, com 90 minutos, é melhor que muito filme de suspense lançado nos cinemas. O mote do capítulo é o que alguns autores chamam atualmente de “cultura do linchamento”, mais precisamente a mania das pessoas vomitarem sem critério ódio gratuito nas redes sociais contra qualquer pessoa que pense diferente delas.

Toda a Sua História – S01E03: Um casal briga por ciúme e mostra a dependência do ser humano no futuro em relação à sua memória, toda registrada e facilmente acessível graças a um implante ocular. Bizarro e triste, o ep mostra como uma tecnologia supostamente revolucionária pode ser totalmente equivocada e mudar hábitos.

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Engenharia Reversa – S03E05: Talvez o episódio mais assustador em termos éticos. O exército cria máscaras tecnológicas que distorcem a visão dos soldados e transforma seus alvos em criaturas desfiguradas para aumentar a eficiência e eliminar qualquer vestígio de compaixão neles. O resultado é bastante pesado e desesperançoso.

Manda quem pode – S03E03: Pessoas vítimas de um hacker precisam realizar tarefas determinadas para evitar que ofensas racistas ou conteúdos eróticos sejam vazados. Outro capítulo que levanta a questão da ética, principalmente em relação à privacidade do outro.

Volto já – S0201: Um dos episódios que mais apela para a emoção ao lidar com uma das situações mais delicada e natural da vida: a morte. Você usaria uma tecnologia que emula um ente querido morto? O resultado é melancólico e triste.

San Junipero – S03E04: Outro episódio melancólico que apela para o sentimentalismo. No futuro, será possível fugir da vida em uma realidade alternativa em que tudo se resume a ser um eterno sábado à noite de balada regada à pista de dança e canções pop.

Natal – S02E04: Não sei o que é mais bizarro nesse episódio, o fato de você criar uma cópia sua para realizar as tarefas banais do dia a dia ou a possibilidade de você bloquear na vida alguém indesejado (quem nunca bloqueou alguém no MSN, Skype, app ou Facebook que levante a mão).

Versão de Testes – S03E02: Um turista americano se envolve nos testes de um novo game de terror de realidade avançada. O resultado é tenso e assustador, mas o final é decepcionante.

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Queda Livre – S03E01: Um dos episódios mais discutidos. No futuro, o que importa não é dinheiro, mas a quantidade de estrelas que você recebe em interações na vida e em aplicativos. O resultado é bem pastel, assim como a paleta de cores de um mundo clean e apático.

Quinze Milhões de Méritos – S01E02: Em um futuro distópico (?) ou você vira astro de TV ou pedala uma bicicleta para ganhar méritos e ter um avatar mais bonito. Com um estética de reality show, a grande mensagem do capítulo é que, no fundo, todo mundo quer mesmo é ser parte do sistema. Um tanto óbvio e sem graça.

Momento Wado – S02E03: Em tempos de Trump e Bolsonaro, por que não votar em um bichinho virtual? O resultado da questão é o episódio mais fraco da série.

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