Matrix Resurrections

Hollywood é movida a dinheiro e nostalgia, então nada mais natural que a trilogia “Matrix” ganhasse, em algum momento, uma sobrevida. O problema é que, para além do dinheiro e nostalgia, nada realmente justifica a existência de “Matrix Resurrections”, quarto filme da franquia que tenta trazê-la de volta à vida quase vinte anos depois das decepcionantes continuações do clássico lançado em 1999.

Nada contra dinheiro, afinal vivemos em um mundo capitalista que valoriza sucesso e grana. Nostalgia também funciona, claro, vide o sucesso do novo filme do Homem-Aranha. Mas essa continuação da trilogia original criada pelos então Irmãos Wachowski é uma grande déjà vu, uma memória decepcionante e piorada de algo que já foi bom e original.

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E não há nada de original em “Matrix Resurrections”, nenhuma ideia ou concepção, efeitos especiais revolucionários ou imagens impactantes. Tudo é apenas um arremedo de algo que já foi icônico e intrigante. O longa começa como uma grande homenagem à trilogia, em especial o original, sempre que possível inserindo cenas icônicas ou diálogos sobre a franquia no meio da narrativa para ironizar a própria indústria cultural de cinema e videogames.

A estratégia de se autoreferenciar, no entanto, é superficial e pouco acrescenta à proposta de dar continuidade à guerra entre humanos e máquinas, aqui sem a aura inovadora do original de 1999. Ok que o próprio “Matrix” não traz uma trama realmente inédita, e sim uma releitura de mitologias já exploradas à exaustão pelo cinema. Mas o filme fazia essa colagem de referências com arrojo estético e uma narrativa bem contada. 

Nada disso está presente em “Matrix Resurrections”. Visualmente, a continuação é feia e desinteressante, quase pobre mesmo em termos de produção, bem longe da estética impressionante da produção de 1999. Tirando duas grandes cenas que funcionam lindamente em termos de efeitos especiais e tensão (a briga no galpão ironizando o efeito bullet time, que marcou a trilogia e revolucionou o cinema de ação, e uma mais para o final envolvendo um grito de Trinity), todo o resto do longa parece mal costurado e desenvolvido. As coreografias, por exemplo, são genéricas, e as cenas de ação parecem cópias de tudo que já vimos, da própria trilogia a “Inception” até chegar a um final que remete a “Guerra Mundial Z”.  

A verdade é que “Matrix Resurrections” é mal dirigido (apenas por Lana Wachowski) e resulta em um produto mambembe que, no geral, é uma grande bagunça (lembrando, de certa forma, “Sense 8”, outra produção das Irmãs Wachowski). Tentanto a todo custo se fazer relevante, o longa atira para todos os lados, ora remetendo ao conceito de fake news ao criticar como as pessoas deixam a emoção suplantar os fatos ou mesmo a falta de originalidade da indústria cultural, ora se apegado à própria nostalgia para fazer sentido (a relação entre Neo e Trinity, por exemplo, é o que realmente funciona na trama). 

A questão é que apenas a saudade de algo que já passou não é o suficiente para superar uma narrativa cansada que revisita praticamente toda a trama original não para dar a ela um outro sentido, mas para simplesmente homenageá-la. O tiro, no entanto, sai pela culatra porque “Matrix Resurrections” parece extremamente consciente da importância do original, e o constante piscar de olhos para o espectador soa arrogante e forçado, nada espontâneo e orgânico. 

Em meio a diálogos ruins, novos personagens esquecíveis e uma pasteurização da própria mitologia da série, que, aqui, passa por cima até de figuras como Morpheus e o Agente Smith (quase irrelevantes à trama), “Matrix Resurrections” fica perdido entre ser um grande fan service e uma continuação caça-níqueis cujo sentido é dar origem a outras produções e mais lucro. No geral, quem se sai melhor na empreitada e o Agente Smith (muito bem vivido por Jonathan Groff), o único personagem e ator que parece entender que nada aqui deveria ser levado tão a sério. 

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