
“Barbie” tinha tudo para ser uma tragédia em potencial, um filme oco com uma trama ridícula para vender bonecas. Mas a produção acertou em cheio ao chamar a atriz-roteirista-diretora Greta Gerwig (“Lady Bird”, “Adoráveis Mulheres”) para cuidar da adaptação para o cinema da boneca mais famosa do mundo. O resultado é um misto de publicidade com panfleto que sobrevive ao hype e abraça o ridículo da forma mais divertida possível.
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Um dos primeiros acertos de Gerwig é criar um universo plausível e mergulhado em referências à própria história da boneca que mudou a forma como mundo via bonecas. Sem se levar a sério, a roteirista-diretora (com a ajuda do marido Noah Baumbach) cria um texto esperto que não apenas tira sarro de si mesmo (no caso da Mattel, empresa que criou a boneca) como usa o patriarcado como grande vilão
Ainda que “Barbie” fique na superfície e se ache um filme mais inteligente do que é, Gerwig dirige tudo com habilidade, cuidado e esmero, respeitando a trajetória da boneca e a criticando ao mesmo tempo. Isso com direito a uma direção de arte e figurinos de cair o queixo e um elenco que embarca na brincadeira sem reservas, o que é fundamental para que o filme funcione.
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A trama, talvez o ponto fraco do longa, não é lá essas coisas, com um plot um tanto bobo que parece uma colagem de produções melhores (“O Show de Truman”, “Toy Story 3” e “Matrix”) e piores (“Mulheres Perfeitas” e “Não se preocupe, querida!”). O discurso que permeia o longa também atira para todos os lados, falando de finitude, propósito, medo de mudanças, machismo, consumismo e por aí vai. Mas, como próprio produto inserido na lógica que supostamente critica, faz sentido que o longa não vá muito além nas discussões que propõe.
Isso, na verdade, não chega a ser um problema. Ninguém vai assistir a um longa como “Barbie” esperando um texto anarquista e revolucionário. Mas, ainda que a produção volta e meia resvale para o piegas, o filme consegue balancear muito bem a premissa “existencialista” com um contexto divertido e de puro entretenimento.
O fato da produção piscar a todo momento para o espectador, seja por meio de referências ou de ironias, também ajuda o público a comprar a ideia nonsense do longa, com Barbie e Ken indo parar no mundo real e desencadeando um cataclisma que pode mudar para sempre o mundo de plástico e seguro da boneca.

Com uma ótima atuação de Margot Robbie (em especial no modo com a atriz se movimenta), um Ryan Gosling simplesmente hilário e algumas sacadas realmente geniais (de algumas gags visuais às cenas musicais e toda a lógica por trás da Barbieland), “Barbie” funciona melhor quando deixa um pouco de lado a autoironia e abraça um tom mais espontâneo.
A melhor cena do longa, por exemplo, é quando o filme para de piscar um momento para o público e joga a real sobre o papel da mulher em uma sociedade machista que odeia mulheres, não importa o que elas façam. Mesmo inserido em um contexto de comédia, o monólogo da personagem de America Ferrara (de “Ugly Betty”) joga na cara do espectador o quanto o mundo desvaloriza as mulheres, por mais que exista uma narrativa de empoderamento das mesmas (usada e abusada pelo capitalismo para vender produtos, inclusive a própria boneca Barbie).
Ainda que não seja uma revolução (em um determinado momento, por exemplo, Barbie pede desculpas ao Ken por não amá-lo), não deixa de ser um avanço que uma produção sobre uma boneca que praticamente fez sucesso ao explorar um padrão feminino inalcançável consiga rir de si mesma de forma divertida e inteligente. Isso deixando de lado o público infantil para mirar em um público adulto em uma eterna busca pela nostalgia.
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Em um ano em que o cinema hollywoodiano tem abraçado os filmes sobre mercadorias por meio de suas origens e pela ostentação do sucesso (“Air”, “Blackberry”, “Tetris”, “The Beani Bubble”), é reconfortante que Greta Gerwig tenha optado pelo caminho de uma fantasia que reflete sobre a própria mitologia do produto. E, para um filme que tinha tudo para ser uma bomba, é um feito e tanto.
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