O Mundo Depois de Nós


Em determinado momento de “O Mundo Depois de Nós”, o personagem de Ethan Hawke grita ser um homem inútil sem a ajuda do GPS ou de outros aplicativos do seu celular. Enquanto isso, sua filha adolescente se ressente por, diante de um mundo sem internet ou conexão, não conseguir assistir ao último episódio de sua série favorita, “Friends”. No thriller apocalíptico de Sam Esmail, a humanidade vira refém da tecnologia que ela mesma considera como evolução.

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Não deixa de ser irônico, então, que um longa que, de certa vangloria, a mídia física e um passado menos tecnológico seja produzido justamente pela Netflix, um streaming que, vejam só, ajudou a tornar ultrapassados DVDs, CDs e afins. Afeito ao universo das paranoias, Sam Esmail (criador das séries “Mr. Robot” e “Homecoming”) parece a pessoa perfeita para transformar o livro homônimo de Rumaan Alam em um thriller tecnológico que aposta em um apocalipse comandado por hackers, ou algo parecido.

O primeiro acerto de Esmail como roteirista e diretor é explicar muito pouco sobre o cenário caótico que aos poucos toma conta da narrativa, com um celular sem sinal aqui ou um navio desgovernado que invade a praia acolá. Ainda que aponte caminhos e deixe pistas, o diretor-roteirista prefere confiar no espectador, que preenche as lacunas de um filme bem pouco interessado em respostas.

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Seguindo os passos de Steven Spielberg em sua adaptação de “Guerra dos Mundos”, Esmail deixa o todo de lado e foca a narrativa em torno de duas famílias que, meio a contragosto, acompanham o caos tomando forma sem entender muito bem o que está acontecendo. Eles não são heróis ou tentam salvar o mundo, apenas seguem em frente em busca de um plano que parece nunca chegar.

Amparado por um ótimo elenco que coloca de lados opostos Ethan Hawke e Julia Roberts contra Mahershala Ali e Myha’la, é por meio da dinâmica entre as duas famílias que entendemos a fragilidade e desconfiança que nos cerca e possibilita que o caos seja implantado sem que ninguém perceba. Em um mundo em que todo mundo é cada vez mais autocentrado e tem medo ou suspeita do próximo, vivemos em constante perigo.

Emulando o que há de melhor em M. Night Shyamalan (uma ambientação tensa e que parece nos mostrar que há algo de errado) com a câmera nervosa e virtuosa de David Fincher (a forma como ela se movimenta pela casa, por exemplo), Sam Esmail constrói um filme enervante e bem amarrado, ainda que nem tudo funcione. O roteiro, por exemplo, se sai bem melhor na construção da tensão do que no desenvolvimento dos personagens, em especial na questão do conflito racial que se estabelece a princípio entre as duas famílias ou na forma como o texto deixa óbvio que o maior perigo é mesmo o outro, representado em uma cena um tanto boba e forçada com Kevin Bacon.

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No final das contas, o longa parece uma versão modernizada do pouco visto “O Efeito Dominó”, thriller que mostrava como um apagão pode nos afetar lá nos anos 1990 (o filme é de 1996). Mesmo assim, “O Mundo Depois de Nós” cumpre seu papel comprovando o talento mais uma vez de Sam Esmail, dando chance para seu elenco brilhar e mostrando que a Netflix pode, sim, fazer um filme apocalíptico bom (ao contrário do genérico “Bird Box”, por exemplo).

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