
Sem querer apagar a identidade própria de “A Substância”, o novo filme de Coralie Fargeat é uma versão body horror de “A Morte lhe Cai Bem”, uma comédia do começo dos anos 90 que já refletia, ainda que superficialmente, sobre a obsessão de Hollywood pela beleza e juventude, especialmente das mulheres.
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Aqui, em uma leitura bem mais sanguinolenta e grotesca da mesma premissa do filme de Robert Zemeckis, Demi Moore vive uma estrela que vê o seu brilho apagar por causa da sua idade. Demitida de seu programa fitness, ela agarra a chance de se manter sob os holofotes quando surge a oportunidade de experimentar uma substância que cria uma espécie de dublê mais jovem de si mesma. Assim como em “A Morte lhe Cai Bem”, a juventude eterna, no entanto, não é de graça, com um preço talvez caro demais a ser pago pela atriz.
Com uma direção precisa de Fargeat, que já mostrou uma verve sanguinária no terror “Vingança”, “A Substância” grita estética para satirizar justamente a estética das plásticas, harmonizações e aplicações de botox. Da direção de arte vintage à fotografia e ambientação quase cirúrgicas, da trilha sonora pulsante à ironia do roteiro, o longa leva às últimas consequências a crítica à obsessão pelo belo, pelo novo e pelo controle do corpo, muitas vezes lembrando o body horror do mestre David Cronenberg (do grotesco de “A Mosca” à fetichização de “Crash: Estranho Prazeres” até as experimentações do recente “Crimes do Futuro”).

Para incorporar essa premissa que abraça o exagero, a cineasta conta com uma Demi Moore que se entrega ao, talvez, papel de sua vida. Sexy symbol dos anos 90, Moore nunca foi levada a sério como atriz, virando uma espécie de réfem da própria beleza e do próprio corpo graças ao sucesso de produções como “Proposta Indecente” e “Assédio Sexual”. Já na casa dos 60 anos, a atriz, que fez diversas plásticas e intervenções, deixa de lado a vaidade para se entregar à proposta de Fargeat. O resultado é ao mesmo tempo surpreendente e melancólico, com Moore mostrando fragilidade e incorporando uma força e uma loucura nunca antes vistas em sua carreira.
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Como contraponto a Demi Moore, Margaret Qualley (filha de Andie MacDowell, de “Quatro Casamentos e um Funeral”, e uma das melhores atrizes da nova geração) surge bela e com sede de viver, contrariando as regras de uso da substância e dando início à descida ao inferno da personagem vivida por Moore. A atuação das duas se complementam, mostrando bem a dinâmica de inveja e de nojo entre juventude e maturidade (ou velhice mesmo).

Apesar da plasticidade da bela encenação e da entrega das atrizes, “A Substância” peca, no entanto, por um certo didatismo em seu roteiro (vencedor do prêmio em Cannes). Mesmo sem explicar nada sobre a origem da substância em si, a trama insiste em repetir elementos como se não confiasse em seu público, tirando um pouco da força do texto e da própria crítica que o filme se presta a fazer.
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“A Substância” também não sabe muito bem como encerrar suas discussões, alongando-se demais em um final que parece martelar na mesma tecla, exagerando não apenas no sangue, mas também no gore. A referência a “Carrie, A Estranha” compensa, de certa forma, a falta de controle do ato final, que fecha o filme com uma bela cena que resume toda a proposta da produção.
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