Megalópolis

Afastado das grandes produções há mais de 30 anos (seu último grande filme foi “Drácula de Bram Stoker, lançado em 1992), Francis Ford Coppola parece ter muito há dizer em “Megalópolis”, projeto pessoal que o cineasta demorou mais de 40 anos para ver pronto nas telonas. O resultado de mais uma egotrip do diretor (“Apocalype Now” e “No Fundo do Coração” são outras de suas produções fora da curva) é, no entanto, bastante irregular, com uma narrativa confusa e uma encenação que, por vezes, deixa a desejar.

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Depois do sucesso de “Drácula de Bram Stoker”, a carreira de Coppola tomou rumos inesperados, com o cineasta dirigindo uma comédia irregular à lá Disney (o pouco visto “Jack”) e o drama de tribunal “O Homem que Fazia Chover” (também pouco lembrado nos dias de hoje). Nos anos 2000, após assumir e finalizar a direção de uma produção complicada (a sci-fi “Supernova”), Coppola viu no cinema experimental um caminho de fuga em que ele teria mais controle de suas obras: nasceram daí uma série de filmes que quase ninguém viu, como “Velha Juventude”, “Tetro” e “Virgínia”, produções menores e independentes que fugiam da aura hollywoodiana de seu passado.

Megalópolis” seria então o retorno de Coppola aos filmes com grande orçamento e um escopo narrativo mais épico, com o cineasta destruindo Nova York (ou Nova Roma, como a cidade é chamada no longa) para refletir sobre a decadência da América. Com total controle da obra (financiada por ele mesmo), o diretor, no entanto, parece perdido em suas intenções, pulando de tema em tema sem necessariamente desenvolver nenhum deles.

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Em determinado momento, a trama parece criticar o mundo supérfluo e vazio das celebridades, em outro, mostra a ascenção de populistas que usam a fraqueza do povo para dominá-los em nome de ambição e poder, fazendo referência ao estado político atual. Os temas são relevantes, mas o diretor e roteirista não sabe como apresenta-los ou costura-los em uma narrativa coesa e mesmo interessante.

Coppola até tenta centralizar todos esses temas usando seu protagonista, o arquiteto Cesar Catilina (um Adam Driver se especializando em produções ambiciosas e irregulares, como “Annette”, “Casa Gucci”, “Ruído Branco” e “Ferrari”), como dono do ponto de vista do longa. Com uma visão utópica do mundo, assim como o próprio Coppola, o arquiteto que transformar Nova Roma em uma cidade-exemplo que possa ser acessível a todos. Sua utopia, no entanto, não é bem-vista pelos poderosos, despertando a fúria de gente como seu primo (Shia LaBeouf, péssimo) e o prefeito (Giancarlo Esposito).

Em uma narrativa que mais parece uma sucessão de esquetes, “Megalópolis” ainda flerta com o romance (entre o arquiteto e a filha do prefeito, Nathalie Emmanuel) enquanto também filósofa sobre a passagem tempo (por alguma razão, o arquiteto controla o tempo). Ainda sobram vários outros personagens que nada acrescentam ao filme, em um vai e vem de rostos conhecidos que pouco têm a fazer (Laurence Fishburne, Talia Shire, Jason Schwartzman, Kathryn Hunter e Dustin Hoffman) ou trabalham em um registro completamente fora do tom (Aubrey Plaza, Jon Voight e o próprio Shia LaBeouf).

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Nesse caos narrativo, sobram algumas boas cenas em meio à encenação artificial do longa, que abraça a cafonice em sua direção de arte e figurinos que remetem à época do Império Romano. Lançado no mesmo ano do bem superior “O Brutalista”, que também gira em torno de um arquiteto obcecado por um projeto visionário, “Megalópolis” perde na comparação e parece existir apenas para mostrar que, às vezes, a visão de um cineasta, ainda que alguém da estatura de Francis Ford Coppola, precisa sim de controle.

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