Ainda Estou Aqui

É realmente bonito ver um filme nacional com uma temática tão importante como “Ainda Estou Aqui” virar uma sensação à la Barbenheimer (o fenômeno do lançamento de “Barbie” e “Oppenheimer”, em 2023). Baseado em uma trágica história real passada nos tempos de ditadura (que parece reverberar ainda mais nos tempos obscuros atuais), o novo filme de Walter Salles tem dominado as discussões e lotado salas de cinema em todo o país. Qual o último filme nacional que conseguiu gerar tal repercussão? “Bacurau” talvez.

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Afastado dos longas de ficção desde “Na Estrada” (2012), Walter Salles volta seu olhar para o cinema nacional (seu último longa brasileiro foi “Linha de Passe”, de 2008) para narrar o drama de Eunice Paiva, uma mulher que vê sua vida transformada após a prisão e o sumiço do marido, o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva, cujo corpo jamais foi encontrado. 

Apenas uma das várias manchas de sangue deixadas pela ditadura (que teima em ser apagada pela extrema-direita que enfesta o país e segue sendo eleita sem pudor por nossos pais, tios, amigos e colegas de trabalho), a história ganha o pedigree da Globoplay (é a primeira produção de cinema original do streaming) e os rostos de Fernanda Torres, Selton Melo e Fernanda Montenegro para dar cara e sentimento ao um drama histórico que apela menos para o contexto político e mais para a emoção e a tensão. 

E “Ainda Estou Aqui” é um filme que coloca a tensão no centro de sua narrativa. O longa até começa em um outro registro que apresenta a vida familiar feliz de Eunice e Rubens, marcada por almoços, encontros e momentos de alegria. O olhar de Eunice, no entanto, teme por sua família enquanto capta detalhes e sabe que alguma coisa está fora da ordem. O temor ganha ares de horror com o sequestro do marido, o que deixa ela e os filhos à deriva em busca de respostas que nunca vêm. 

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Walter Salles tira o máximo proveito da intensidade da trama e do carisma do elenco para construir um filme que ganha um tom mais sóbrio, mas sem deixar de lado a emoção. Nesse sentido, Fernanda Torres assume o centro da narrativa e domina a tela com uma atuação quase dura que, mesmo sem grandes arroubos dramáticos, conquista pela sinceridade. 

A direção de Salles e o roteiro de Marcelos Rubens Paiva, que adapta o livro homônimo que conta a história de sua família, nem sempre, no entanto, acompanham Fernanda Torres, por vezes abraçando um didatismo desnecessário que nada acrescenta ao filme. São pequenas cenas que sobram na edição ou apelam para um maniqueísmo forçado que parece não confiar na própria força da história. 

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Se esses pequenos defeitos impedem que “Ainda Estou Aqui” seja um filme perfeito (e ele nem precisa ser, na verdade), Walter Salles repete a parceria com Fernanda Montenegro (em pequena participação) e, assim como em “Central do Brasil”, coloca o Brasil mais perto do Oscar. Se as indicações e o prêmio realmente virão, pouco importa, o longa está pronto, ganhando público e relembrando um período de dor e sofrimento do país que não pode ser esquecido ou mesmo repetido. Talvez esse seja o grande mérito da produção: dar um tapa na cara na falsidade moral da extrema-direita. 

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