
É de se louvar a ambição de “Emilia Pérez”, o novo trabalho do cineasta francês Jacques Audiard (de “O Profeta” e “Ferrugem e Osso”), indicado a 13 Oscar, um recorde para um filme não-falado em inglês. Mas ao mesmo tempo que a produção ousa em sua temática e mesmo abordagem, ela falha em sua encenação e realização. Isso porque, talvez, “Emilia Pérez” fosse um melhor filme se os produtores deixassem de lado a ideia de o longa ser um musical.
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“Emilia Pérez” narra o drama de um chefe de cartel mexicano que contrata uma advogada para que esta fique encarregada de sua cirurgia de confirmação de gênero. Manitas Del Monte está cansado de sua vida e decide que é hora de ir em busca de seu sonho: ser uma mulher. Para isso, ele aposta tudo em Rita Moro, uma advogada cansada das injustiças de seu país, que vê na proposta de Manitas a possibilidade de ficar rica e mudar de vida. Surge então Emilia Pérez. Mas esse nascimento não vem de modo fácil, com Manitas tendo que morrer para renascer longe da esposa Jessi e dos filhos.
Essa trama que reflete sobre frustração – não apenas em relação à identidade de gênero, mas também profissional (no caso da advogada cansada da corrupção que assola o México) – ganha de Audiard uma roupagem musical e operístico, e aí que “Emilia Pérez” se perde. Nada justifica a escolha da narrativa ganhar vida como um musical. As canções do longa não são boas, parte do elenco não sabe cantar, e o cineasta francês parece bem pouco à vontade em cenas musicais que ora parecem duras demais, ora amadoras e desengonçadas.

A escolha musical também parece atrapalhar o próprio desenvolvimento da narrativa. Pouco sabemos sobre Manitas e o que o levou a seguir a sua escolha. Apenas um momento do longa mostra, por meio de uma carta, a personagem falando sobre o seu drama, mas a cena parece pouco convincente.
Karla Sofía Gascón (a primeira atriz trans indicada ao Oscar) faz o que pode em cena, dando dignidade à personagem, principalmente na segunda parte do longa. Mas o filme pouco revela sobre a personagem que catalisa sua trama, tratando a própria questão da transexualidade de forma simplista, como se tudo não passasse de uma transição banal de “ele” para “ela”, de “pênis para vagina”, como profana uma das canções.
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Zoe Saldana, mais afeita a grandes produções como “Star Trek”, “Avatar” e “Guardiões da Galáxia”, ganha aqui uma oportunidade de mostrar sua versatilidade interpretando a advogada que guia Manitas em sua redesignação sexual e, em seguida, vira conselheira de Emilia Pérez em uma ONG que busca pessoas desaparecidas. As cenas musicais com a atriz são as menos constrangedoras do longa, e Saldana dá o seu melhor, mas o longa parece muito pouco interessado na personagem.

Juntamente com Karla Sofía Gascón e Zoe Saldana, Selena Gomez (péssima vivendo a esposa de Manitas) e Adriana Paz (em um pequeno papel que surge já na metade final do longa) ganharam o prêmio em conjunto de melhor atriz em Cannes. Mas o esforço das atrizes se perde em meio a um roteiro confuso e a uma encenação desengonçada que praticamente minam toda a ambição do longa, envolvo em polêmicas relacionadas à representação clichê tanto da comunidade transexual como dos mexicanos.
A irregularidade de “Emilia Pérez” não tem, no entanto, afastado o filme da crítica e das premiações. Com 13 indicações ao Oscar (filme, filme internacional, diretor, atriz, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, edição, fotografia, maquiagem, trilha sonora, som e duas canções), a produção era favorita à premiação até um escândalo envolvendo tuítes antigos e controversos de Gascón vazarem na internet.
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Se o filme, o principal concorrente de “Ainda Estou Aqui” na categoria de filme internacional, vai ganhar o prêmio ou ser prejudicado pela polêmica, só o tempo dirá. Mas não deixará de ser triste se produção brasileira perder o Oscar de filme internacional para um trabalho bem inferior (assim como “Central do Brasil” perdeu para “A Vida é Bela”), ainda que sua temática seja extremamente relevante no momento atual.
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