Biutiful

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No cinema de Alejandro González Iñárritu, desgraça pouca é bobagem. Os personagens de seus filmes costumam comer o pão que o diabo amassou, sofrem de doenças, enfrentam mortes, trapaças, dores e amores. Choram e entram em desespero. É um cinema de sofrimento em alto e bom som.

A diferença entre Biutiful e os trabalhos anteriores de Iñárritu é que, se antes ele dividia esse sofrimento entre vários personagens e linhas narrativas, aqui o foco é um só e bem linear: Uxbral, um médium que vive de explorar imigrantes ilegais em Barcelona. Valendo-se do lema “diga-me com quem andas que te direi quem és”, Uxbral não é flor que se cheire e vive rodeado por policiais corruptos e chineses exploradores.

Seguindo a lógica do “aqui se faz, aqui se paga”, Uxbral descobre que está com um câncer terminal e se vê na berlinda ao não saber o que fazer com os dois filhos pequenos, já que a mãe deles não é uma pessoa confiável.

Diante da tragédia anunciada, Iñárritu não poupa o espectador e, para variar, pesa a mão transformando a dor em belas imagens. Ninguém filma o mundo cão com tanto apuro estético quanto o cineasta mexicano. Para alguns, um grande elogio; para outros, a prova de que Iñárritu é um diretor de uma nota só.

Mas, mesmo sendo especialista nesse tipo de filme miserável, o diretor faz uso de metáforas desnecessárias (as borboletas que tomam conta do teto mofado do quarto de Uxbral) e de uma câmera hiperbólica sempre em busca de imagens que reforcem o sofrimento e a desgraça humana. Iñárritu vê certa beleza na dor, e seu cinema segue a mesma linha, nem sempre sabendo quando parar, daí a excessiva duração de 147 minutos de mazela atrás de mazela.

Longe da influência de Guillermo Arriaga, roteirista de seus filmes anteriores (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel), Iñárritu se vê solto e, em “Biutiful”, fica ainda mais à vontade para dirigir demais o que poderia muito bem ser simples e direto.

Se tal característica do diretor muitas vezes impede o filme de estabelecer uma conexão maior com o espectador, por outro lado, temos Javier Bardem entregando uma interpretação sensível e cheia de emoção. Uxbral pode não ser exemplo de melhor ser humano, assumindo até uma postura passiva em relação à sua inevitável morte, mas Bardem nos faz olhar para o personagem com compaixão e ternura. Um alento dentro de um filme pesado e quase masoquista no forma como explora a dor e as mazelas da vida.

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