Pílulas: dores & amores

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Nicole Kidman e Aaron Eckhart sofrem pela perda do filho pequeno. Cada um a seu jeito. Ele vê os vídeos  do filho e se reúne com um grupo de pais que passaram pela mesma dolorosa experiência. Ela adota uma postura distante e amarga e não assume a própria dor. Em Reencontrando a Felicidade, o casal tem que enfrentar a si mesmo para salvar o casamento.

Eles também sofrem ou sofreram. Não pela perda de alguém, mas em virtude de um amor violento. Acusações, humilhações, espancamentos, ameaças e outras práticas bizarras fazem ou fizeram parte de suas rotinas. Personagens sem rosto que ganham as feições de atores para narrar suas histórias no docudrama Amor?

O primeiro é um drama sensível e que foge dos recursos de um melodrama fácil. Dirigido por John Cameron Mitchel (“Hedwig and the angry inch” e “Shortbus”), um cineasta com talento para a composição visual e narrativas elaboradas, “Reencontrando a Felicidade” traz um tema batido e recorrente. Mas o olhar delicado e sensível de Mitchell joga o espectador no meio do turbilhão de emoções que consome o casal Becca e Howie, fazendo o público esquecer que já viu essa história recentemente, ainda que em outras roupagens (“Anticristo”, de Lars von Trier, é um exemplo).

“Amor?” apresenta uma série de depoimentos sobre casos de amores violentos. Alguns são bastante fortes e comovem. Outros não convencem. Dirigido por João Jardim, o docudrama opta por esconder o rosto de seus personagens sob a máscara de atores conhecidos (Lilia Cabral, Ângelo Antônio, Eduardo Moscovis, Julia Lemmertz, entre outros). O recurso nem sempre funciona, e a impressão que fica é que a encenação tira um pouco da força das histórias. A comparação com Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, é imediata, e, ainda, que os filmes tenham suas particularidades, a obra de Jardim perde na comparação.

Em “Reencontrando a Felicidade”, a melancolia é a chave utilizada por Mitchell. O ritmo do filme é lento, e as relações entre os personagens conduzem o longa. Os conflitos entre Becca, a mãe e a irmã, a tentativa quase desesperada dela se aproximar de um adolescente, o enlace entre Howie e a colega de grupo. Todas as relações funcionam como contraponto para a própria falta de contato entre o casal. A opção de abrir espaço para os atores brilharem é adequada, e Kidman e Eckhart aproveitam a oportunidade para entregar interpretações de partir o coração.

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Já em “Amor?”, as interpretações ficam em segundo plano. E isso pesa contra o próprio filme. Indeciso entre  a encenação ficcional e o distanciamento documental, o diretor insere cenas que funcionam como um interlúdio entre os depoimentos, mas que nada agregam dramaticamente. A linguagem também não está em discussão. A dicotomia entre real e ficção não está em jogo, como no filme de Coutinho. Essa opção coloca todo o foco no tema do filme, a discussão um tanto simplista sobre os limites do amor. O resultado é um docudrama interessante, mas que não alça voo, fica na superfície e no óbvio.

Se em “Reencontrando a Felicidade”, uma encenação mais crua e fria funciona para mostrar ao espectador que aquele não é um filme de redenção, muito menos de catarse, em “Amor?”, o tom adotado é também o de distanciamento e o não julgamento de seus “personagens”, mas, aqui, o resultado pouco emociona, muito menos acrescenta algo sobre o tema.

Um pensamento sobre “Pílulas: dores & amores

  1. Ah, eu agora vou assistir Reencontrando a Felicidade!, só devido à sua crítica, meu bem. Me convenceu. Vou logo me preparando para chorar. A-d-o-r-o melancolia.

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