Série: Enlightened

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Já disse aqui antes que a televisão estadunidense hoje em dia é bem mais interessante, tematicamente falando, do que o cinema hollywoodiano. Enquanto este está cada vez mais preocupado com fórmulas, bilheterias e certo apaziguamento ideológico do público, os produtos televisivos seguem um caminho diverso, apostando em temas ousados e abordagens inusitadas.

A nova série Enlightened é um exemplo dessa safra de filmes e seriados televisivos com personalidade e algo a dizer e que foge da padronização cinematográfica. Esqueça as continuações caça-níqueis, os filmes explosivos ou os triângulos amorosos sem sal entre vampiros celibatários, garotinhas inexpressivas e lobisomens depilados que pululam na tela grande. Aqui, temos humor inteligente, personagens perdidos e uma crítica contundente ao american way of life, algo que o cinema e a própria televisão já fizeram inúmeras vezes, mas é sempre bem-vindo quando feito com talento.

A primeira cena é emblemática e resume a proposta do seriado: Laura Dern é uma executiva que chora descompensadamente no banheiro da empresa. Ela acaba de ser transferida de setor e julga ser seu chefe, com quem teve um pequeno affair, o culpado de tudo.  À beira de um ataque de nervos, Amy (Dern) decide colocar tudo em prantos limpos com o chefe, em alto e bom som para toda a empresa ouvir. Corta e, em poucos segundos, somos apresentados a uma nova Amy, que tenta ser uma pessoa melhor e mais preocupada com o mundo e próximo.

Em linhas gerais, o seriado é sobre esse processo de transformação da personagem, que tenta se apegar a uma mudança espiritual e de percepção do mundo para dar um rumo a sua vida. A relação com a mãe (Diane Ladd, mãe da atriz na vida real) e o ex (Luke Wilson) é conturbada. Ela não tem amigos no trabalho. E as frustrações profissionais são maiores do que ela pode aguentar. É a partir dessa personagem tragicômica que o plot da série se desenvolve e solta farpas sobre o mundo corporativo e a fragilidade das relações no mundo moderno.

Enlightened conquista pela honestidade com a que personagem é desenvolvida e as situações, retratadas. Depois de, supostamente, recuperada, Amy volta ao trabalho e é transferida para um setor cheio de losers dignos do universo de Todd Solondz (“Felicidade”). Perdida nessa nova fase da vida, a executiva fica presa em uma constante linha tênue entre o equilíbrio e o desespero.

Grande parte do fato da série ser narrativamente bem sucedida recai sob a atuação de Laura Dern (também criadora da série, em parceria com Mike White). A atriz não tem medo do ridículo e se entrega em devoção a um personagem que passeia pelo cômico, o dramático e o patético. O início e o final do terceiro episódio sintetizam o espírito da série. Amy narra em off a inveja que ela tem de algumas pessoas, felizes, bem-sucedidas e amadas, e se sente menor. Logo depois, se compara aos colegas do novo setor, estranhos, deslocados, feios, e, de certa fora, se sente aliviada.

É o paradoxo da personagem e o carisma da atriz para dar autenticidade a esses contrastes a grande sacada de “Enlightened”. O melhor é que a série se sustenta mesmo parecendo ser apenas um veículo, com toques de auto-ajuda, para a atriz brilhar. Ela brilha, sim, mas a série também.

Um pensamento sobre “Série: Enlightened

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