Televisão: série X minissérie

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The Americans foi uma das grandes revelações entre as novas séries que estrearam no começo do ano. Já Top of the Lake deixou certa impressão de decepção. A primeira conseguiu a proeza de, em 13 episódios, fazer frente a outro seriado com temática similar (o elogiadíssimo “Homeland”) e ainda deixar para trás nossa ideia contemporânea de produções sobre espionagem (ritmo acelerado, alta tecnologia e viagens pelo mundo afora, tudo culpa do novo James Bond e do energético Jason Bourne). A minissérie de sete episódios produzida pela cineasta Jane Campion estreou cheia de pompa, foi comparada ao cult “Twin Pinks” (de outro diretor/produtor egresso do cinema, David Lynch) e morreu na praia, apesar da realização competente.

Criada por Joseph Weisberg, novato no ramo que escreveu apenas alguns episódios de “Damages” e “The Falling Skies”, The Americans volta no tempo da Guerra Fria para mostrar a rotina de um casal de agentes russos infiltrados no subúrbio de Washington nos anos 1980, em plena Era Reagan. Elizabeth e Philip foram recrutados ainda cedo para viverem um casamento de fachada e espionar o inimigo norte-americano de perto, no próprio solo ianque. Com dois filhos adolescentes, a cada episódio, o casal enfrenta uma nova missão que envolve sequestros, mortes, sabotagem e por aí vai.

O grande acerto da série é nunca esquecer que tanto Elizabeth quanto Philip são seres humanos que vivem a vida de um casal comum e enfrentam problemas banais do dia a dia. Mesmo sendo uma série norte-americana, bancada por um canal norte-americano, Weisberg trata os personagens russos com respeito e nunca os retrata como vilões. Nós, do lado de cá da tela, sempre tão acostumados a ver filmes, séries e qualquer tipo de produção retratando o heroísmo estadudinense, seguimos a mesma lógica, ficamos em cima do muro e torcemos pelo casal ao mesmo tempo em que temos simpatia pelos agentes da CIA que correm atrás da dupla.

Apesar da história envolvente, cheia de idas e vindas no tempo para explicar o passado dos protagonistas, e de uma dramaturgia que cresce a cada episódio, chegando ao final com vários ganchos para a segunda temporada, o sucesso da série é decorrente do ótimo trabalho do elenco. Keri Russell (a eterna Felicity) e Matthew Rhys (de “Brothers & Sisters”) se saem muito bem como o casal de espiões, despertando carisma e transmitindo os sentimentos confusos de duas pessoas que vivem uma vida de mentira da forma mais verdadeira possível. O elenco de apoio não fica atrás. Noah Emmerich, Annet Mahendru, Alison Wright e Margo Martindale interpretam personagens duros, sofridos e que vivem sob a sombra da disputa entre dois países e dois ideais.

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O ótimo elenco também é a grande força de Top of the Lake, mas não há carisma ou tensão aqui. Sempre versando sobre o universo feminino, Jane Campion se arrisca na televisão com essa minissérie que leva o público aos confins da Nova Zelândia para, junto com a detetive Robin, desvendar o paradeiro de uma garota grávida e desaparecida em uma gélida e isolada região. Claro que Robin, que nasceu e cresceu ali e está voltando da Austrália, enfrentará o preconceito local e descobrirá uma série de esqueletos no armário em sua investigação.

Ainda que já tenha trabalhado com o suspense no injustiçado “Em Carne Viva”, Campion perde tempo demais na caracterização dos personagens e na ambientação e cria uma produção visualmente interessante, mas que se arrasta em sua proposta. Com uma bela fotografia e uma trilha sonora marcante, a minissérie fica devendo não apenas em tensão, mas no desenvolvimento da trama. Fugindo de uma abordagem mais melodramática, Campion desperdiça personagens, abandona ideias e entrega um final apressado e que deixa a desejar.

A maior prova da aura de decepção que impregna a produção é a personagem da atriz Holly Hunter, uma espécie de guia espiritual que comanda uma comunidade de mulheres que se instala à beira de um lago para repensar a vida. A comunidade não acrescenta em nada à história, que mistura pedofilia, abuso sexual, drogas e segredos familiares, e a interpretação de Hunter (uma atriz talentosa que teve com Campion um de seus maiores sucessos, “O Piano”) fica restrita a uma caricatura infeliz.

Felizmente, o rosto estranho e emblemático da ótima Elizabeth Moss conduz a história e empresta certo ar de melancolia à produção. A minissérie encontra na atriz a melhor tradutora das intenções de Campion, e é a atriz, em uma interpretação madura e triste, que compensa as falhas de uma minissérie que prometia entregar mais e fica apenas na superfície.

 

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