Oppenheimer

Em um determinado momento de “Oppenheimer”, o protagonista pergunta a uma figura secundária se ela está entediada. Tédio pode não ser o que o filme gera no espectador (até porque a música intrusiva mal dá um respiro ao público), mas essa espécie de cinebiografia sobre “o pai da bomba atômica” está longe de ser uma produção fácil de acompanhar.

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Com longas três horas de vais e vens perdidos entre conversas e discursos aleatórios, Christopher Nolan cria uma cacofonia de imagens para, de certa forma, buscar a redenção do cientista que, após criar uma das armas mais letais já feitas, é descartado pelo governo dos Estados Unidos sob a acusação de ligações comunistas.

Ainda que já tenha demonstrado e provado sua importância como um cineasta que sabe envelopar entretenimento de forma épica, em “Oppenheimer”, Nolan parece repetir seus habituais erros em larga escala, algo já visto no confuso e quase insuportável “Tenet”. Sempre empregando um ar de seriedade e importância à narrativa, o diretor mais uma vez deixa a sutileza de lado e apela para uma mão pesada que quase põe tudo a perder.

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Com uma edição confusa costurada por vários depoimentos, em especial um do próprio Oppenheimer e outro do personagem vivido por Robert Downey Jr, Nolan é incapaz de criar tensão e emoção, colocando toda a dramaticidade do longa no colo de uma trilha sonora que explode na tela para tentar dar uma unidade a uma trama estilhaçada demais. O resultado é uma surra de filme, não necessariamente no bom sentido, tão frio e distante que seu maior mérito é deixar o espectador mudo tentando sobreviver à música e colando as cenas soltas que desfilam sem uma ordem cronológica.

Depois da aguardada explosão (quase a única razão de ser do longa – e longe do impacto causado, por exemplo, pela grande cena de “O Primeiro Homem”, produção com quem tem semelhanças: descortinar o homem por trás da fama), o filme parece entrar um pouco nos eixos, deixando mais claro seu propósito de denunciar a conspiração sofrida pelo físico. Mas depois de cerca de 1h30 de duração, fica difícil tirar essa primeira impressão de pedantismo desmedido, ainda mais evidente por causa de um desfile de rostos conhecidos que parece estar no longa apenas para reforçar a seriedade de tudo (Kenneth Branagh, Gary Oldman, Casey Affleck, Rami Malek, Florence Plugh aparecem e somem do nada).

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Diante dessa estratégia de muito barulho por nada, é o restante do elenco que tenta segurar as pontas e manter o interesse nessa trama verborágica em que os diálogos praticamente atropelam o belo visual do longa (cortesia da fotografia de Hoyte Van Hoytema, que já trabalhou com o diretor em “Interestelar”, “Dunkirk” e “Tenet”). Enquanto Cillian Murphy usa seus belos olhos azuis para dar alma a um personagem mal desenvolvido, Matt Damon faz o básico e Robert Downey Jr. (o mais próximo que o longa tem de vilão) rouba a cena. Já Emily Blunt pouco tem o que fazer, assumindo o ingrato papel de esposa problemática (e não deixa de ser uma pena que ela, talvez, receba a primeira indicação ao Oscar apenas por ser a personagem feminina mais relevante de uma produção focada em homens).

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Ainda que não seja realmente um filme essencialmente ruim, “Oppenheimer” falha em criar qualquer empatia com o protagonista, mesmo que essa seja sua boa intenção (mal comparando, “Uma Mente Brilhante” e “O Jogo da Imitação”, outras cinebiografias de cientistas, conseguem chegar mais perto do público mesmo que apelando para o melodrama novelesco). Austero e sufocado pelos ares de importância, o roteiro de Nolan pelo menos acerta ao não poupar o governo dos Estados Unidos, ainda que essa crítica não minimize o ufanismo de um longa que poderia ser melhor (e mais curto) nas mãos de alguém que não se levasse tão a sério.

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