
Inicialmente pensada como uma minissérie, “And Just Like That” acabou virando uma série com direito a uma terceira temporada já confirmada. A continuidade da série só pode ser justificada pelo eterno saudosismo que parece mover um mundo atual carente e soterrado pela noção de nostalgia. Derivada e apegada ao sucesso da original “Sex and The City”, “And Just Like That” existe apenas pela necessidade (um tanto masoquista) de acompanharmos a trajetória tortuosa de Carrie, Miranda e Charlotte, agora rodeadas por novas personagens mais diversas e inclusivas. É uma pena, no entanto, que as personagens antes icônicas tenham virado um pastiche de si mesmas, um arremedo do que elas sonharam ser quando jovens.
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Ainda que essa segunda temporada pareça trabalhar de forma mais orgânica as novas personagens que ampliam o círculo de amizades dos brancos e ricos de “Sex and The City”, o roteiro segue falhando em desenvolver conflitos reais e mesmo interessantes. A professora negra amiga de Miranda, por exemplo, fica boiando sem ter muito o que fazer. A dondoca cineasta passeia de lá para cá em belos vestidos praticamente repetindo os dramas de Charlotte, uma mulher bem-sucedida que, em algum momento, se vê dividida entre família e trabalho. Enquanto Seema segue substituindo Samantha no quesito mulher fatal, Che ganha alguns contornos mais interessantes, deixando de ser um panfleto ambulante sobre o não-binarismo para se tornar uma pessoa mais real.

Mas o roteiro da série segue apostando na superficialidade de todas as questões, o que fica ainda mais amplificado graças a uma encenação que beira o sitcom (menos as gargalhadas), com cenas e situações que se atropelam como esquetes de um programa humorístico. O resultado é fácil de assistir e, vez ou outra, causa alguma comoção, mas é tudo tão genérico e esquecível que não deixa de ser melancólico que uma série original tão histórica tenha se tornado algo tão derivativo.
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Um outro problema grave da série é a própria noção de que mulheres maduras podem ser tão desinteressantes e inseguras. Claro que maturidade não implica dizer que a vida está resolvida e que novos problemas surgirão. Mas “And Just Like That” trabalha tão mal com os clichês e estereótipos que praticamente macula a imagem de suas personagens, em especial as originais já bastante presentes no imaginário do público.

Miranda é a que mais sofre com o descaso da série. Confusa em sua sexualidade, a personagem embarca em uma jornada de insegurança que não a leva a lugar nenhum, apenas a transforma em uma cinquentona adolescente. Charlotte segue a mais irritante, passando uma ideia até equivocada de que uma pessoa chata se torna ainda mais chata quando vira mãe. Já Carrie é vítima de roteiristas que a odeiam, com a felicidade sempre comprometida por dramas estapafúrdios e forçados (Aidan volta à cena do nada para apenas ter que sair novamente graças a um plot meia boca e nada convincente).
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Entre trancos e barrancos, vestidos coloridos e uma diversidade um tanto irreal (Che é a única personagem que, em algum momento, tem dificuldades financeiras), “And Just Like That” segue maculando a importância de “Sex and The City”, uma marca que fez história, mas que se tornou irrelevante não apenas porque o mundo mudou, mas porque foi atropelada pela ganância. Que venha a terceira temporada! A série não é boa, mas seguiremos assistindo.
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