Assassinos da Lua das Flores


Martin Scorsese construiu uma filmografia povoada por personagens de homens brancos que acreditavam estar acima de tudo e de todos, muitos agindo não apenas em benefício próprio, mas realmente crendo estar fazendo a coisa certa. Em “Assassinos da Lua das Flores”, Leonardo DiCaprio interpreta mais um desses personagens, um homem que se casa com uma indígena por causa das terras dela.

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Inspirado em uma história real de um massacre de osages, donos de terras recheadas de petróleo nos Estados Unidos da década de 1920, “Assassinos da Lua das Flores” inunda a tela de sangue e ganância para mostrar como o dinheiro, o poder e o capitalismo corrompem o homem e destróem vidas sem nenhuma culpa ou remorso, tudo em prol do maior acúmulo possível doe capital. 

Assim como outras produções de Scorsese, “Assassinos da Lua das Flores” é costurado pela violência, com o cineasta contando em seu próprio tempo a história dessas personagens que tiveram a sorte e o azar de cruzarem com o petróleo. Com 3h30 de duração, o diretor, no entanto, opta por um registro mais intimista, misturando silêncios com um ritmo menos frenético para dar todo o espaço para os personagens respirarem e viverem seus conflitos e dramas.


Ainda que o escopo do longa seja épico, tanto em sua duração quanto em termos de grandiosidade de produção, o foco são mesmo os personagens, em especial os vividos por Leonardo DiCaprio, Lily Gladstone e Roberto DeNiro (todos já cotados para receber indicações ao Oscar). Quem sai ganhando são os atores, que conseguem desenvolver as personagens sem pressa em longas conversas e cenas em que o foco são os diálogos. 

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Não que Scorsese não use suas tradicionais marcas, como as câmeras que se movimentam de forma rápida entre um personagem e outro, e uma trama cheia de vais e vens amarrados pela ótima edição de sua habitual parceira Thelma Schoonmaker. Mas o diretor parece menos interessado na violência que toma conta da história e mais em como ela afeta a relação entre essas pessoas, principalmente entre Ernest e Mollie (DiCaprio e Gladstone), um casal cercado pela morte e cujo relacionamento se localiza em uma linha tênue entre o amor e o interesse financeiro. 


Depois dos enfadonhos “Silêncio” e “O Irlandês”, mesmo não abrindo mão de uma longa duração, Martin Scorsese parece finalmente encontrar o balanço de uma narrativa importante e pretensiosa, mas que não sobrecarrega o espectador. Ainda que deixe de lado elementos característicos de um cinema de cunho mais comercial, como clímax e redenção, o cineasta entrega um exercício narrativo denso, mas bem amarrado e envolvente, nunca tedioso, algo difícil em tempos que estamos cada vez mais acostumados às narrativas curtíssimas do TikTok, por exemplo.   

Em “Assassinos da Lua das Flores”, Scorsese mostra mais uma vez porque é um dos mestres do cinema, dando o tempo necessário para a trama se desenvolver e o espaço para seu elenco brilhar (Jesse Plemons, Brendan Fraser, John Lithgow aparecem em pequenos papéis). Em meio a homens brancos sedentos por dinheiro, Lily Gladstone traz dignidade a uma história povoada por corruptos e é alma de um filme sem final feliz. Enquanto Robert DeNiro incorpora com carisma um homem manipulador que se aproxima dos indígenas de olho em suas terras, DiCaprio não hesita em criar um personagem dúbio e asqueroso, mas que ganha o público em uma única cena quando percebe que foi longe demais. 

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Sem concessões ou grandes arroubos dramáticos (leia-se cenas gritadas), Martin Scorsese prova em “Assassinos da Lua das Flores” que é possível prender o espectador na tela por 3h30 sem precisar de efeitos especiais, atos de heroísmo ou um ritmo alucinante.

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