Anatomia de uma Queda

Se fosse um filme hollywoodiano, “Anatomia de uma Queda” poderia ser uma versão assexuada de “Instinto Selvagem” (com quem o longa divide, devida às proporções, algumas similaridades), um thriller em que a maior preocupação é descobrir se a morte do corpo achado coberto de sangue na neve foi acidental ou um assassinato. Mas, para a sorte do público, o longa é uma produção francesa e a diretora Justine Triet está mais interessada em desvendar a relação entre o marido morto e a esposa acusada do que na causa da morte em si.

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Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, “Anatomia de uma Queda” poderia ser um típico filme de tribunal, mas Triet usa o “gênero” apenas como ponto de partida para o estudo de uma personagem para lá de ambígua. Sem muitos rodeios, o longa começa com uma entrevista banal entre uma estudante de literatura e a escritora Sandra. A música alta que o marido da escritora coloca interrompe a entrevista. Não demora então para a narrativa deixar de lado a banalidade e abrir espaço para a descoberta do corpo do homem pelo filho do casal. Ele estava trabalhando reformando o sótão da casa. Após a entrevista, ela foi dormir. Pelo menos é isso que ela relata aos policiais quando eles chegam ao local.

Inconsistências no discurso dela e do filho que encontrou o corpo, no entanto, logo mostram que nem tudo que se diz é verdade e que as aparências enganam (ou não). Com um roteiro detalhista que coloca na mesa todos os elementos prós e contras a esposa acusada, o longa deixa de lado uma abordagem mais fácil de suspense para focar no drama desse casal que parecia viver uma relação deteriorada em meio a traições, traumas do passado e problemas financeiros.

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O filme ganha força quando o julgamento de Sandra se inicia. É a partir daí que o público passa a ter uma uma melhor percepção dos problemas enfrentados pelo casal. Tudo amarrado e apresentado com esmero pela diretora, que cria um deleite narrativo que prende a atenção do espectador sem precisar lançar mão dos típicos recursos hollywoodianos (trilha sonora intrusiva ou uma edição frenética, por exemplo). O resultado é uma delícia de se assistir, acessível, inclusive, para quem tem aversão à verborragia das produções francesas.

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Apesar da ótima direção de Justine Triet e do roteiro muito bem estruturado, a trama centra na personagem de Sandra e o filme vive graças à atuação de Sandra Huller (de “As Faces de Toni Erdmann” e do assombroso “Zona de Interesse”). É por meio do rosto da atriz que o público descobre o desgaste da relação entre a personagem e o marido, com Huller demonstrando ora frieza e ora humanidade e confundindo o público, sem nunca revelar as intenções da escritora, durante as cenas do tribunal, quando “Anatomia de uma Queda” demonstra todo seu poder narrativo.

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