
Alguns filmes passam por cima da gente tal qual trator. Na minha lista de longas que pisam em mim sem pena estão a trilogia “Antes do Amanhecer“/”Antes do Pôr do Sol“/”Antes da Meia-Noite“, os “dramas-indie” “Encontros & Desencontros“, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança” e “Ela” e a dramédia “A Pior Pessoa do Mundo“. Adicione-se a esta lista o delicado “Vidas Passadas“.
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Dirigido e roteirizado pela estreante em longas Celine Song, o filme reflete não apenas sobre as pessoas que passam e marcam nossas vidas, mas como elas nos ajudam (ou atrapalham) em relação à nossa própria autopercepção de sucesso ou fracasso. Aos 12 anos, Nora quer ganhar um Nobel. Mas ela sabe que, sendo coreana, tem poucas chances. Em busca de mais, sua família decide migrar para a América, mais particularmente o Canadá. A garotinha deixa para trás não apenas as origens e a cultura, mas o primeiro amor de escola, o garoto Jung Hae Sung.

Anos depois, mais precisamente 12 anos, graças às facilidades tecnológicas, leia-se Facebook, os dois se reencontram online. Jung Hae Sung nunca esqueceu da coleguinha e, em meio a conversas cada vez mais comuns e longas via webcam, a paixão entre os dois ressurge, ainda que de forma platônica. Ele descobre, por exemplo, que Nora quer ser escritora e agora almeja o Pulitzer. E ela fica abalada com a falta de perspectiva de um encontro real entre os dois.
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Mais 12 anos se passam e finalmente os dois se encontram em Nova York, já mais adultos e realistas. O sonho de um Nobel ou um Pulitzer são distantes para ela, enquanto ele se acha um cara comum e com pouco a oferecer. A vida, afinal, não acontece como prevemos. E “Vidas Passadas” se cerca dessas incertezas e desvios de rota para poetizar o “e se”.

Vendido como um romance, o longa, no entanto, vai além. O roteiro de Song não está interessado apenas em refletir sobre as possibilidades de uma relação entre Nora e Jung, mas também filosofar sobre expectativas frustradas pelo rolo compressor da vida. Emoldurado pelos rostos expressivos dos ótimos Greta Lee (“The Morning Show“) e Teo Yoo (“Decisão de Partir“), o filme corre lento de forma melancólica e abraçando a eterna nostalgia daquilo que não foi.
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Se os dois atores cortam o coração em longas conversas sobre a vida, o que, às vezes, lembra a própria trilogia de Richard Linklater, a direção delicada de Celine Song afaga o espectador, mesmo deixando de lado qualquer romantização ou idealização, na construção de cenas que são tão poéticas quanto dolorosas. Amar dói, se frustrar dói, esperançar dói, e “Vidas Passadas” também deixa uma dorzinha apertando no peito.
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