Todos Nós Desconhecidos

O cinema de Andrew Haigh é permeado de personagens deslocados em suas próprias vidas, de “Fim de Semana” a “45 Anos“, passando mesmo por suas incursões em séries de TV, como “Looking” e “The OA“. Em “Todos Nós Desconhecidos“, adaptação de um livro de Taichi Yamada, o cineasta segue esse caminho da melancolia do não pertencimento, colocando no centro da narrativa um escritor solitário que revisita sua relação com os pais (na verdade, a relação que eles nunca puderam ter). 

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O ótimo Andrew Scott (mais conhecido como o padre de “Fleabag“) vive Adam, um escritor que parece um tanto perdido. Em meio a um bloqueio criativo, o escritor decide vasculhar suas lembranças para poder escrever sobre os pais, ambos falecidos quando ele ainda era criança. A partir daí, com o auxílio de uma bela fotografia e uma ótima trilha sonora banhada em nostalgia (com canções do Pet Shop Boys, Blur, The Housemartins e Frankie Goes To Hollywood), o diretor cria uma narrativa estranha e envolvente em que o protagonista reencontra os pais mortos em sua antiga casa no subúrbio de Londres.

Embalado em um clima fantasmagórico disfarçado de drama familiar e romance (ou vice-versa), “Todos Nós Desconhecidos” vira assim uma espécie de sessão de terapia do além, com o escritor fazendo as pazes com o passado e os pais mortos, que nunca souberam, por exemplo, que ele era gay. Entre uma visita e outra aos pais falecidos, em que ambos tentam acertar as arestas de uma relação interrompida, Adam se envolve ainda com um vizinho mais jovem e depressivo, vivido por um Paul Mescal (“Aftersun“) carismático e de cortar o coração.

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Ainda que a premissa do longa pareça absurda, Andrew Haigh prefere deixar de lados explicações e confia no espectador para que este entenda que o que importa é como os personagens desse drama espiritual se sentem, não razões plausíveis para explicar o inexplicável. Para isso, além de toda a bela embalagem audiovisual, o diretor recorre ainda a um grupo de atores que deixa a emoção à flor da pele, desarmando o espectador em conversas cheias de dor e sentimento. Além dos olhares perdidos de Andrew Scott e Paul Mescal, o filme conta também com interpretações emocionantes de Jamie Bell (“Billy Elliot”) e Claire Foy (“The Crown”) como os jovens pais do escritor.

Um dos longas mais belos e tristes lançados ano passado (junto com “Vidas Passadas“), “Todos Nós Desconhecidos” quase derrapa em seu ato final, graças a uma reviravolta desnecessária e manipuladora. Mas, até que esse ponto chegue, tudo é encenado de forma tão honesta, especialmente na maneira como o filme reflete sobre o que era ser gay no passado e o que é ser gay hoje, que fica difícil não relevar esse desvio equivocado de rota.

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Em meio a uma viagem ao passado tão melancólica e cheia de vida, dominada pelo olhar de arrependimento e tristeza que emana dos personagens, “Todos Nós Desconhecidos” pode até cair na vala das produções sobre “gays tristes”. Mas isso não tira o impacto e a beleza de um longa de cortar o coração.

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