Gladiador II

Ninguém pediu uma continuação de “Gladiador”, um desses filmes-marco da virada dos anos 2000. Mas Ridley Scott foi lá e fez. O problema é que o cineasta (dono de três dos meus filmes preferidos da vida: “Alien: o 8oPassageiro”, “Blade Runner” e “Thelma & Louise”) não é mais o mesmo há um bom tempo, dirigindo meio no piloto automático e em escala industrial um filme atrás do outro, todos sem muita inspiração (seu último trabalho realmente bom é “Perdido em Marte”).

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Em “Gladiador II”, Scott parece querer provar que consegue repetir o sucesso do primeiro (vencedor do Oscar) em uma escala mais épica e grandiloquente, aumentando a ação, os efeitos especiais e os furos do roteiro. Se “Gladiador” fazia sentido lá em 2000 como a ressureição de um tipo de produção há muito tempo morta, em 2024, a continuação parece mais uma na multidão de espetáculos visuais extremamente dependentes do CGI que Hollywood despeja anualmente no cinema ou nos streamings. O pior é que, mesmo com mais dinheiro e tecnologia, “Gladiador II” é um filme muito mais feio do que o anterior.

Mas não é só a estética que decepciona em meio a uma direção esquizofrênica de Ridley Scott, perdido entre a seriedade e o tom camp. Falta carisma e mesmo coerência narrativa a esse remake disfarçado de continuação. Forçando a barra para fazer uma conexão com o anterior, esse aqui pega emprestada todas as batidas do primeiro, repetindo a sua engrenagem narrativa em uma versão sem charme e frescor, com a ação e o espetáculo passando por cima da coerência e lógica.

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Se falta uma identidade a “Gladiador II”, cuja base é, claro, o mais do mesmo (disfarçado de nostalgia), quando o longa tenta se descolar do original, aí sim ele falha miseravelmente. O início já anuncia uma trama mais apressada que não desenvolve os personagens como o longa protagonizado por um Russell Crowe no auge da sua gostosura. Mas, no decorrer do filme, Scott chuta o balde e pisa o pé no acelerador em uma trama sobre honra e glória que se desenvolve aos trancos e barrancos em meio a lutas barulhentas entre gladiadores, babuínos, rinocerontes e tubarões.

É coisa demais acontecendo até o filme, Ridley Scott e os próprios atores desistirem de tudo e se entregaram a um terceiro ato final que beira o ridículo. Enquanto a primeira parte do longa era divertida, a partir da virada do roteiro, seguem-se cenas mal editadas e sem lógica com um Denzel Washington à beira da caricatura em direção a uma indicação (segundo a internet) ao Oscar de melhor ator coadjuvante (ele está péssimo, então não duvido).

Pior que ele só mesmo Joseph Quinn (“Stranger Things”) e Fred Hechinger (“The White Lotus”), que interpretam dois irmãos imperadores maquiados e afeminados que jogam Roma no excesso e na corrupção. Isso até eles serem ameaçados por tramoias políticas vagabundas e pelo gladiador brutamontes da vez, um Paul Mescal que parece fora do lugar. Por mais bom ator e gostoso que seja, o it-boy do momento fica mais à vontade em filmes menores e tramas intimistas (“Aftersun”, “Todos Nós Desconhecidos”), faltando a ele força e presença para convencer como um gladiador (algo similar a Timothée Chalamet em “Duna”).

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Mas Paul Mescal é o menor dos problemas de “Gladiador II”, um longa que repete os erros do original (o blábláblá religioso, por exemplo) e comete ainda outros piores. Depois do segundo ou terceiro discurso à la “Coração Valente” e de toda uma sequência final que beira o constrangimento, fica a sensação de que está mais do que na hora de Ridley Scott desistir de ganhar o Oscar de direção e se aposentar de vez. Não é uma bomba, mas também não é bom! Salva-se Pedro Pascal em um papel menor que tenta dar alguma dignidade a esse caça-níquel desnecessário. 

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