Perdido em Marte

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Perdido em Marte é tudo que “Interestelar” queria ser, mas passou bem longe. Enquanto o filme de Christopher Nolan é pretensioso e calculado, o de Ridley Scott é leve e espontâneo. Enquanto Nolan dá voltas e mais voltas até chegar ao ponto, Scott é direto e não enrola. Enquanto o longa protagonizado por Matthew McConaughey é épico e existencialista, a produção estrelada por Matt Damon é pop e alto astral.

As comparações não param por aí e têm fundamento porque os filmes possuem algumas semelhanças em suas tramas, apesar das inúmeras diferenças narrativas. Ambos são centrados em viagens espaciais com uma pegada mais realista (e que dão errado) e contam com um grande elenco cheio de rostos familiares, com as participações de Damon e Jessica Chastain.

No comparativo, “Perdido em Marte” ganha com léguas de distância. Ridley Scott imprime um ritmo preciso em um longa otimista e emocionante, que tem como grande trunfo o carisma e talento de Damon, aqui em uma atuação que imprime um tom mais leve e humorado ao material. Ainda que o filme não seja uma jornada de solidão como “Gravidade”, “Naúfrago” e “127 Horas” (a narrativa vira e mexe desvia o olhar de Damon para mostrar o que a Terra está fazendo para resgatá-lo), o longa é inteiro dele.

Para quem não sabe nada sobre a trama, Damon é um astronauta que, graças a uma tempestade inesperada e um acidente, é deixado para trás por seus colegas em Marte, o planeta vermelho lindamente fotogrado por Dariusz Wolski (de “Prometheus”). A partir daí, Scott divide a narrativa entre Damon tentando sobreviver à fome, temperatura, solidão e intempéries de Marte e as discussões da NASA em resgatá-lo ou não.

Aqui surge outro diferencial entre “Perdido em Marte” e “Interestelar”. Enquanto o último é pesado e esquemático, o primeiro é divertido e esperançoso sem ser maniqueísta e piegas. Scott aposta na emoção sem apelar para o sentimentalismo barato e constrói uma narrativa sobre união, amizade e solidariedade.

Mesmo sem ser contemplativa como o trabalho de Nolan, a produção ainda é linda de se ver, com um 3D muito bem empregado e que amplia a dimensão da solidão e isolamento sentidos pela personagem de Damon. E algumas sacadas são muito boas, como as referências pop e a trilha sonora que destoa daquilo que esperamos em relação a um longa de ficção científica, mas que casa à perfeição com o tom empregado por Scott – diretor que se redime de uma má fase que resultou em uma série de trabalhos equivocados (o último filme realmente bom dele é “Falcão Negro em Perigo”).

“Perdido em Marte” ainda abre espaço para uma leitura mais política, ainda que essa não seja a abordagem e intenção do filme. Em tempos de trevas, ódio e preconceito, e se a personagem de Damon fosse uma mulher, um negro, um gay ou islâmico, será que a comoção seria a mesma? A resposta não vem ao caso e não diminui a força do longa, um dos melhores da temporada.

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