Nosferatu

Falta cor e paixão a “Nosferatu”. Depois de “A Bruxa”, “O Farol” e “O Homem do Norte”, Robert Eggers parecia o nome perfeito para comandar um novo remake do clássico expressionista. E o cineasta se esforça mergulhando o filme em sombras e trevas, tentando, de alguma forma, criar uma ambientação mais realista para a trágica história do vampiro obcecado por uma mulher. 

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Mas se o remake de 1979 abraçava uma apelação teatral e a adaptação do romance original de Bram Stoker lançada em 1992 (o imbatível “Drácula de Bram Stoker”, de Francis Ford Coppola) apelava para um romance quase rococó, Eggers parece não ter muito o que dizer de novo em sua nova versão. Ele, claro, embala o filme com toda a suntuosidade que uma grande produção hollywoodiana pode oferecer, mas o longa carece de uma identidade própria, contentando-se em apenas recontar a mesma história para uma nova geração.

Eggers parece, por exemplo, devoto demais ao clássico lançado em 1922, transformando a nova produção em um filme escuro e pálido. Se os contrastes entre sombras e luz e os cenários distorcidos do longa de F.W. Murnau faziam sentido no tempo do cinema mudo e em preto & branco, Robert Eggers tenta reencenar sem sucesso essa mesma aura, entregando uma produção que fica no meio do caminho entre uma seriedade por demais exacerbada e um novelão de horror, ainda que o longa careça de sustos e tensão. 

Não que o cineasta não busque novos caminhos. A paixão do Conde Orlok por Ellen, por exemplo, é substituída por uma sensação de posse. Se “Drácula de Bram Stoker” dava um passado aos dois, contextualizando a paixão e a obsessão do vampiro pela moça, “Nosferatu” estabelece esse passado de outra forma, com o monstro tomando a garota como uma propriedade. A leitura até emprega um certo viés feminista à trama, com Ellen deixando de lado, depois de muito se lamuriar, o ar de mocinha de novela para determinar o próprio destino.

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Surge aí o melhor elemento desse novo remake: a atuação alucinada de Lily-Rose Depp (“The Idol”). A atriz realmente se entrega à visão de Robert Eggers, se contorcendo em cenas de possessão que nada ficam devendo a “O Exorcista” e a “Possessão” (em que Isabelle Adjani, que já interpretou esse mesmo papel em “Nosferatu: O Vampiro da Noite”, transforma seu divórcio em uma descida ao inferno). Ora frágil, ora transtornada, ora dona de si, Lily-Rose Depp preenche a tela e busca oferecer ao espectador um novo olhar a uma trama para lá de familiar. 

Outros destaques do elenco são Nicholas Hoult (“Jurado Nº 2”), como Thomas Hutter, o noivo de Ellen (papel vivido por um fraco Keanu Reeves no longa de Coppola), e Aaron Taylor-Johnson, que interpreta seu amigo nobre preso em uma tragédia que não é sua. A relação entre Thomas e seu amigo também dá ao filme uma ideia de desigualdade social, mas o roteiro pouca explora essa questão, preferindo se concentrar na ambientação gótica que inspira mais nojo do que medo. 

Em relação a Bill Skarsgård, que interpreta o novo Nosferatu, o ator pouco tem a fazer, mesmo porque o filme o esconde nas sombras boa parte do tempo. Coberto em uma maquiagem que apresenta uma nova leitura visual para o personagem, o ator carrega no sotaque e parece uma caricatura causando apenas repulsa, nem de longe assustando quanto os monstros de Max Schreck e Klaus Kinski ou seduzindo como a figura trágica de Gary Oldman.

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Com uma direção de arte e figurinos corretos e uma fotografia que carece de impacto (de Jarin Blaschke, colaborador habitual de Eggers e indicado ao Oscar por “O Farol”), “Nosferatu” perde em comparação aos seus antecessores, faltando à produção a beleza estética ou mesmo o romance necessários para que o filme seja mais do que mais uma nova versão da tradicional história base de vampiro. Ou talvez apenas minha expectativa era grande demais. 

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