
Depois de vencer o Emmy de melhor minissérie por “Treta” (2023) e “Bebê Rena” (2024), a Netflix tem grandes chances de repetir o feito na premiação em 2025 com a surpresa “Adolescência“. Assim como as duas anteriores, “Adolescência” estreou sem muito alarde até ganhar a atenção da crítica e do público, virando um fenômeno cultural no meio do caminho. As razões para esse sucesso são muitas, em especial a forma nua e crua como a minissérie mostra o estágio decadente da sociedade sem apelar para um final feliz ou esperançoso.
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Em apenas quatro episódios, filmados todos em plano-sequência, a minissérie narra com certa urgência o desenrolar de um crime que nunca é mostrado. O primeiro episódio já começa com a prisão de um suspeito, um adolescente de apenas 13 anos acusado de matar a facadas uma colega de escola. A partir daí o horror toma conta da narrativa, com “Adolescência” mostrando fragmentos da trama a partir de diferentes perspectivas: da polícia, da escola, dos familiares e do próprio acusado (a revelação Owen Cooper, em seu primeiro trabalho como ator). E é justamente aqui que a minissérie justifica seu barulho.

Não há, por exemplo, esperança em “Adolescência“. Se nossos idosos estão entregues às fakes news e às teorias da conspiração, cada vez mais descolados da realidade, os adultos tentam sobreviver como podem ao capitalismo, enquanto as novas gerações se perdem nas redes sociais e na falta de atenção dos pais. E como sair incólume a uma sociedade cada vez mais aberta à ideologia da extrema-direita? A resposta, claro, é que ninguém está a salvo de uma sociedade cada vez mais violenta, tanto no mundo real quanto no virtual, e abraçada de forma hipócrita a valores como “Deus, pátria e família” para justificar seus preconceitos e manter os privilégios de (muito) poucos.
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Ainda que a produção não responda todas as perguntas que a trama desencadeia, “Adolescência” é devastadora. Aqui, o crime em si e seus detalhes são apenas um catalisador para uma reflexão nada positiva dos tempos atuais. Parte do poder da minissérie é a forma como ela é narrada. Dirigida com precisão por Philip Barantini, a trama deixa o todo de lado para focar em momentos específicos dessa tragédia que abala uma comunidade no interior da Inglaterra, mais especificamente a prisão e o depoimento do principal suspeito, as reações dos colegas de escola dos envolvidos, uma conversa do garoto com uma psicóloga e o impacto dos acontecimentos na vida dos pais do acusado.

Enquanto os planos-sequência dão uma urgência e tensão à produção, os atores mergulham nesse inferno que passa por cima de todos. Logo no primeiro episódio, uma enfermeira afirma que detesta casos com menores de idade. No último episódio, os pais do garoto (vividos por Stephen Graham, um dos criadores da minissérie, e Christine Tremarco) tentam sobreviver à culpa e salvar a família da desgraça pós-tragédia em meio a uma sociedade que não se acanha em responsabilizar os pais.
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Se as escolhas narrativas limitam o escopo da trama criando uma certa frieza e distanciamento, “Adolescência” compensa essas falhas explorando sem rodeios temas delicados e importantes como bullying e responsabilidade parental, alertando, por tabela, para o atual cenário desolador de uma sociedade cada vez mais afundada em sua própria alienação.
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