“O Drama” não é necessariamente uma comédia romântica. Mas, sendo ou não, o filme é vendido como tal e faz parte de uma nova leva de tramas (assim como “Amores Materialistas”, outra produção da A24) que buscam tentar reviver o gênero de forma mais atualizada à sociedade de hoje. Se nos anos 1980 e 1990, esse tipo de longa aprimorou sua fórmula de garoto se apaixona por garota, nos anos 2000, as comédias românticas abraçaram a mesmice até ficarem datadas e problemáticas, caindo na vala da irrelevância.
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Não que “O Drama” não seja problemático. Até é, mas em outro registro, longe da ideia estereotipada do papel de mulheres e homens, por exemplo. Protagonizado por dois queridinhos da mídia, Zendaya e Robert Pattinson, o longa segue essa linha de “comédia romântica” mais adequada aos tempos atuais, com personagens mais complexos e que não se prendem, necessariamente, à fórmula das produções do gênero do passado.
Deixando o simplismo de lado, o filme de Kristoffer Borgli (do igualmente perturbador “Doente de Mim Mesma”) não se intimida em nenhum momento em pesar o clima. Zendaya e Pattinson estão prestes a se casar. Em uma noite de degustação pré-casamento, o casal e dois amigos embarcam em um jogo perigoso de revelar qual a pior coisa que cada um já fez na vida. Bêbada, a personagem da atriz joga merda no ventilador e constrange o noivo, os amigos e, de quebra, o público.
Daí em diante, “O Drama” faz jus ao título e se entrega ao caos, deixando o casamento dos pombinhos por um fio. Mesmo com um tema para lá de delicado, especialmente em um país como os Estados Unidos, o roteiro de Kristoffer Borgli encontra espaço para o humor ácido em meio a uma trama complexa e, por que não, problemática (ao jogar, por exemplo, o peso da revelação no colo de uma mulher e negra, resvalando no clichê da fêmea raivosa de cor).
Enquanto o espectador prende a respiração e assiste a tudo no mais absoluto silêncio (até o ar muda na sala de cinema quando Zendaya solta a bomba), o diretor costura a trama com precisão e, digamos, coragem, revelando personagens complexos e nada fáceis de serem enquadrados em caixinhas de heróis e vilões.
Zendaya e Robert Pattinson compram a premissa maluca do longa e abraçam o absurdo, provando que há espaço, sim, para “comédias românticas” com personagens imperfeitos e que não necessariamente vivem felizes para sempre, questionando lemas do amor romântico como lealdade, confiança, perdão e por aí vai.
Claro que “O Drama” assume o risco de desagradar uma boa parcela do público que chega ao cinema às cegas esperando suspiros com o amor perfeito do casal protagonista. Se na vida real essa ilusão é cada vez mais rara, no filme, ela cai por terra sem deixar pedra sobre pedra.
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Mas, apesar dos pesares, não deixa de ser bonito de ver um filme tão bem filmado, e mesmo envolvente em seu estranhamento, escolher não fazer concessões. Enquanto deixa o público com um gosto amargo na boca e rindo de nervoso, “O Drama” não tem medo de incomodar.
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