Amores Materialistas


“Porque nós vivemos em um mundo materialista, e eu sou uma garota materialista”, canta Madonna no sucesso dos anos 1980. Com 40 anos, a letra de “Material Girl” parece descrever perfeitamente a protagonista de “Amores Materialistas”, uma mulher que deu o pé na bunda do ex porque ele era pobre, isso antes dela virar uma casamenteira de sucesso na agitada (e cheia de solteiros solitários) cidade de Nova York.

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Segundo longa de Celine Song, do aclamado “Vidas Passadas” (indicado aos Oscar de melhor filme e roteiro original), “Amores Materialistas” parece indicar uma partida da diretora do cinema indie para produções mais comerciais. Essa é, pelo menos, a impressão que fica com o elenco de rostinhos badalados (Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans) e um marketing que vende o longa como uma comédia romântica em que a protagonista precisa escolher entre um dos dois pretendentes, o rico Pascal e o pobretão Evans.


Celine e seu longa não estão, no entanto, interessados em virarem um filme bobo que, nos anos 1990 ou começo dos anos 2000, seria protagonizado por Reese Whiterspoon, Jennifer Lopez ou Kate Hudson. A cineasta prefere refletir sobre como amor, casamento, relacionamentos e solidão são encarados por uma sociedade que decidiu abraçar sem vergonha o capitalismo exacerbado. 

Nesse contexto onde as pessoas são avaliadas e valorizadas por seus empregos, rendimentos, altura, peso, condições financeiras e aparência física, valores e medidas, o longa joga na cara do espectador que, em uma sociedade cada vez mais meritocrata, casamentos são negócios e nada mais. A abordagem justifica, por exemplo, a falta de química entre Johnson e Pascal, que tentam um relacionamento a partir de seus interesses financeiros, bem como o estranhamento entre Johnson e Evans, cujo passado guarda diferenças irreconciliáveis em virtude da falta de capital e de ambição de um deles (o homem, claro).

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Nesse jogo de poder econômico entre gatos e ratos, “Amores Materialistas” deixa de lado a delicadeza e a sensibilidade de “Vidas Passadas” para apostar em um registro mais frio e distante que usa o excesso ou a falta de dinheiro como fator motivador para determinar o futuro de um relacionamento. A ideia faz sentido, e o roteiro de Celine não se esquiva de sua proposta, alertando para a capitalização e comercialização do amor em tempos de aplicativos e da terceirização dos serviços (algo que “Ela”, por exemplo, já trabalhava em outro registro).

Amores Materialistas”, no entanto, carece de carisma para defender sua proposta, não funcionando muito como uma leve comédia romântica (um de seus plots, por exemplo, é bastante pesado), nem como um drama em que a protagonista precisa se encontrar (a resolução final é simplista e nada realista). 

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Ainda que traga em alguns momentos a Celine Song de “Vidas Passadas” (a cena de Dakota e Chris observando ao longe o casamento de desconhecidos é bem bonita), “Amores Materialistas” termina sem causar grandes impactos, repetindo estratégias narrativas já batidas por longas como “Harry & Sally. Feitos um para o Outro” e pelo comecinho de “Sex and The City”, e terminando como uma produção que quer ser bonitinha, mas é só ordinária.

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