Sexo sem Compromisso

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A comédia romântica é um gênero conservador em sua essência. Seja esteticamente falando, quando pensamos que o gênero está apoiado em uma estrutura narrativa e em fórmulas que nunca mudam. Seja ideologicamente, já que as comédias românticas, em sua maioria, apoiam-se em um ideal de amor romântico um tanto quanto datado e que, hoje em dia, existe muito mais na ficção do que na vida real.

Se a atualização e as mudanças não são comuns ao gênero, as comédias românticas têm que se virar para conquistar o espectador. Apela-se para a beleza e a química entre o casal central. Diálogos inspirados e situações engraçadas e emocionantes são muito bem-vindas. E coadjuvantes que ora funcionam como alívio cômico, oram roubam as cenas são mais do que necessários. Além de uma embalagem visual e sonora agradável de se ver e ouvir.

O problema de Sexo sem Compromisso é justamente o fato de não se destacar em nenhuma das características acima. Natalie Portman e Ashton Kutcher são bonitos e até funcionam como casal, mas o roteiro desenvolve e explora muito pouco a premissa inicial do filme, atrapalhando um pouco a química entre os dois. Os diálogos e as situação são pouco inspirados e só relevam como o gênero precisa de uma renovação. E os coadjuvantes pouco acrescentam em cena, geralmente tornando a narrativa do filme mais cansada do que ela já é.

Visualmente e em termos de trilha musical, o filme também não empolga e, se fosse uma produção brasileira, seria acusada, com razão, de ser um episódio esticado de uma série televisa qualquer. Como é um filme hollywoodiano, ninguém reclama e fala nada…

Teoricamente, Portman e Kutcher são amigos que resolvem fazer sexo sem compromisso. A premissa é essa. Mas o roteiro é rasteiro demais para assumir qualquer opção mais ousada. Eles nunca parecem realmente ser amigos e um clima de paquera sempre está no ar, já adiantando os caminhos que o filme vai seguir.

Portman e Kutcher se conhecem desde adolescentes, tiveram alguns outros contatos ao longo da vida e voltam a se encontrar já adultos. Ela é médica e não está interessada em relacionamentos sérios. Ele é filho de um artista famoso e está na merda porque a ex está atualmente com seu pai. Sem muitas opções, os dois decidem facilitar a vida e ser fuck buddies.

No mundo real, isso funciona que é uma beleza. Mas no cinema, em um gênero geralmente hipócrita e moralista como a comédia romântica, tal opção de vida é quase um crime e, claro, não funciona. E é essa opção moralista que mata “Sexo sem Compromisso”. Claro que os dois vão se apaixonar. Claro que ela, avessa a complicações, vai dar um fora nele quando percebe que as coisas estão evoluindo para um romance. E, claro, no final, ela vai perceber que errou e correr atrás do amado.

Nesse sentido, “Sexo sem Compromisso”até pretende inovar. Afinal, é a mulher que tem problemas, é egoísta, se auto-sabota e tem que admitir seus erros para recuperar o amor. Mas as “inovações” do filme param por aí. Se “Sexo sem Compromisso” transforma Ashton Kutcher em “mocinha”, o longa peca por criar uma versão masculina para uma personagem feminina, lançando assim as oportunidades necessárias para o desenvolvimento de um roteiro pobre e convencional e acreditando que inovar é, simplesmente, inverter os papéis na guerra dos sexos.

Olhando superficialmente, “Sexo sem Compromisso” faz aquele tipo de filme genérico que agrada. Umas piadas engraçadas aqui, o sorriso e o talento de Natalie Portman ali, os abs do Ashton Kutcher como bônus acolá. Tudo fluindo sem torrar muito a paciência do espectador. Mas por detrás de toda essa embalagem qualquer nota, reside um moralismo que destrói qualquer possibilidade de empatia com o longa.

No final das contas, “Sexo sem Compromisso” é mais do mesmo. Hollywwod hipócrita não admitindo que, em pleno século XXI, um homem e uma mulher podem transar regularmente sem um envolvimento emocional, só pelo ato em si. Sim, sexo sem compromisso existe. E a julgar por esse filme, é bem mais divertido na vida real do que no cinema.

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