A pele que habito

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Filmes de Pedro Almodóvar são quase seres sagrados. Fazem parte daqueles poucos títulos que são obrigatórios e sempre geram controvérsia, para o bem e para o mal. Nesse sentido, por mais diferentes que sejam, Almodóvar não deixa de lembrar o cineasta nova-iorquino Woody Allen. Os dois são amados e odiados em proporções similares e, a cada nova obra, geram uma expectativa nem sempre cumprida. Almodóvar pode não filmar (e errar) tanto quanto Allen, que lança um filme praticamente todo ano, mas é tão amado, desejado, odiado e rejeitado quanto.

A Pele que Habito é, então, um prato cheio para gerar controvérsias, amores, ódios, raivas e paixões. É um filme que, aparentemente, foge um pouco ao que o cineasta espanhol vem fazendo nos últimos trabalhos, mas que nem por isso deixa de ser uma obra almodovariana em sua essência. As cores fortes e os sentimentos exacerbados podem não estar tão visíveis a primeira vista, mas a mistura do bizarro e do melancólico se faz presente de um modo que só encontramos na filmografia do diretor.

O novo filme de Almodóvar começa sem muita força, apresentando sua trama de forma aleatória em sem impacto. Somos apresentados a um cirurgião plástico (um Antonio Bandeiras um tanto gélido demais) que mantém em cativeiro uma mulher. A relação entre os dois não é amigável, mas não é hostil. E assim também é a relação do espectador com o filme. Se o início do longa não mostra a que veio, sempre resta a esperança por aquela ser uma obra de Almodóvar, então os rumos podem mudar.

E eles mudam. A partir da segunda metade da película, a trama antes dispersa e sem força vai ganhando sentidos e prendendo a atenção do público, envolto entre mortes, seqüestros, estupros e outras coisas comuns ao universo almodovariano. “A Pele que Habito” vai ganhando assim novas leituras, e o bizarro e o melancólico começam a se mesclar de um modo que não deixa o espectador tomar fôlego.

A tal reviravolta do filme pode não ser nenhum grande mistério. E mesmo a frieza e a falta de empatia que sentimos pelos personagens podem dar a entender que Almodóvar erra a mão ao tentar retomar um terreno que ficou no seu passado fílmico. Mas o cineasta é um grande esteta audiovisual e sabe contar histórias por meio de imagens e sons, o que torna até seus possíveis erros como produtos relevantes em alguns aspectos.

Ainda longe da forma que o consagrou em produções como “Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos”, “Carne Trêmula”, “Tudo sobre Minha Mãe” e “Fale com Ela”, “A Pele que Habito” é bem superior a filmes mais problemáticos como “Má Educação” e “Abraços Partidos”. Mesmo sem cenas memoráveis e mais impactantes, visualmente ou emocionalmente, “A Pele que Habito” é um belo exercício de cinema, seja como um filme de horror sem gritos e sustos, como desejava o diretor, seja como um melodrama em um tom menor. Uma versão de Frankenstein dirigida pelo espanhol não seria melhor que “A Pele que Habito”.

 

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