O Lobo de Wall Street

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O Lobo de Wall Street é energia pura. Martin Scorsese em estado puro como há muito não se via (provavelmente desde “Os Bons Companheiros”). Usando todo seu arsenal de cineasta maior (edição vigorosa, trilha sonora rock´n´roll, narração em off), Scorsese gasta três horas para contar sem concessões a trajetória de Jordan Belfort, vilão que ganha ares de anti-herói graças à carismática interpretação de Leonardo DiCaprio.

Aprendiz de corretor da bolsa de valores que vira magnata das finanças na Nova York da virada dos anos 1980 para a década de 1990, Belfort é amoral e se vangloria disso, se cercando de gente tão ou mais inescrupulosa do que ele. Para Belfort, sua personalidade é definida pelas drogas, pelo sexo e pela grana que brota no seu bolso. Scorsese segue o mesmo caminho e recheia “O Lobo de Wall Street” de tudo que move o rapaz: palavrões, notas e mais notas de dólares, peitos e muito pó e comprimidos pululam ao longo de toda a produção.

Fugindo da seriedade de um “Wall Street” da vida (filme dirigido por Oliver Stone nos anos 1980 que versava mais ou menos sobre a mesma coisa), Scorsese concentra sua energia em apresentar e ostentar seu protagonista, sempre metido em situações-limite e que chamam a atenção para si. DiCaprio entende as intenções do diretor e se entrega ao personagem, verborrágico, alucinado e em êxtase, aos berros ou usando da oratória para convencer e vencer.

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O ritmo do longa segue a lógica do personagem. O filme começa ágil, ditado pela edição da usual colaboradora do diretor, Thelma Schoonmaker (injustamente esquecida pela Oscar), e pela narração em off de DiCaprio, que vez ou outra fala também com o público. À medida que o filme avança, a decadência do personagem também fica evidente no ritmo que acalma e no tom de ostentação que desce um ponto.

Ainda que seja longo (três horas ainda são três horas), Scorsese e Schoonmaker balanceiam a experiência injetando humor e se preocupando menos em explicar as tramoias ou o próprio mercado financeiro e mais em estabelecer conexões entre o público e os personagens. A narração em off e a fala do personagem em primeira pessoa são exemplos (DiCaprio mesmo tira onda com o público ao tentar explicar os mecanismos do mercado financeiro para logo depois desistir e dizer que entender tudo aquilo não importa tanto funciona para criar empatia).

Amparado por um ótimo elenco de apoio (Jonah Hill surpreende; Matthew McConaughey pouco aparece, mas deixa sua marca; Margot Robbie segura bem a onda de ser praticamente a única personagem feminina revelante; e Kyle Chandler é um sopro de ética em meio ao covil), “O Lobo de Wall Street” acerta ao não ser politicamente correto. Scorsese deixa de lado recursos que poderiam tornar seu filme mais palatável e uma cinebiografia chata e didática (a produção é inspirada em fatos reais) e não tem medo de explorar a principal característica de seus personagens: a falta de vergonha na cara. Algumas cenas podem não ser nada agradáveis de ver, mas quem se importa com isso se quem está no comando é um Martin Scorsese em pleno domínio do seu talento audiovisual.

 

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