Os Outros

Sutileza não é o forte de “Os Outros”, série da Globoplay que poderia muito bem ser dirigida por Cláudio Assis, cineasta pernambucano que adora filmar o mundo cão (“Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas” e por aí vai). Partindo da mesma premissa que a recente “Treta” (Netflix), a série reflete sobre o atual estado de espírito da humanidade a partir de uma briga entre duas famílias de um tradicional condomínio de várias torres na Barra, Rio de Janeiro.

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O confronto entre os casais vividos por Adriana Esteves e Thomas Aquino e Milhem Cortaz e Maeve Jinkings é apenas o pontapé inicial de uma jornada de tormentos e tragédias que começa com uma briga do nada entre dois adolescentes. E é justamente a interminável sucessão de traições, mortes e violência, graças a uma coincidência atrás da outra (os personagens moram em um condomínio enorme, mas se esbarram o tempo inteiro nos corredores e adjacências do prédio) que mina a credibilidade de uma série que quer abarcar muito mais do que ela consegue.

 “Os Outros” até começa bem, sabendo estabelecer os conflitos, apresentar os personagens e criar uma tensão latente que tira a respiração do espectador. Mas não demora para o roteiro desviar a atenção para outros temas que parecem soltos, em especial a questão da milícia e da corrupção policial. Algumas situações forçadas, previsíveis (basta um olhar para saber que Amâncio e Mila terão um caso) e mal desenvolvidas (a resolução da questão policial não faz o menor sentido) e diálogos pavorosos (“Eu sempre sonhei em cortar o teu cabelo”) tornam tudo ainda mais inverossímil e risível.

A série ainda peca por insistir em representar simplesmente todos os personagens como infantis e imaturos (ninguém se comporta como um adulto “normal” na série), ainda querendo explorar mais temas (violência contra mulheres, masculinidade tóxica, relação conflituosa entre pais e filhos) por meio de flashblacks completamente dispensáveis, o que só estica ainda mais a narrativa por 12 longos e desnecessários episódios que existem só para chocar por chocar. A personagem de Adriana Esteves, por exemplo, é retratada como uma louca por 10 episódios para no décimo primeiro um flashback tentar explicar o seu comportamento.

Entra aí outra questão: o elenco. Enquanto parte dele tenta tirar leite de pedra (em especial a ala feminina encabeçada pelas ótimas Adriana Esteves, Maeve Jinkings e Drica Moraes), os atores mais jovens sofrem enquanto Thomas de Aquino entrega uma de suas piores atuações, sendo incapaz de transformar Amâncio em um ser humano de verdade (o personagem é um bocó sem personalidade nenhuma).

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Resta a boa direção que tenta, mas nem sempre consegue, fugir das amarras de um roteiro que ganharia se fosse mais enxuto e focasse apenas no comportamento mimado da classe média carioca. Como a série explora o que há de pior no ser humano e tragédia vende, ela se tornou a produção mais consumida da Globoplay e já ganhou o direito a uma segunda temporada com outra trama e elenco. Os fãs de “Relatos Selvagens” (não sou um deles) vão amar.

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