Cangaço Novo

Cada um dos oito episódios da primeira temporada de “Cangaço Novo” começa com um flashback em preto & branco mostrando partes do passado traumático de Ubaldo Vaqueiro, um garoto preso em uma trama de violência no sertão nordestino. Essas são as cenas mais estetizadas da série nacional de maior sucesso de 2023, deixando para trás “Os Outros“, da Globoplay, que também ganhou o gosto do público ao usar a tensão social como tema.

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Além da ambientação, claro, uma diferença fundamental entre “Os Outros” e “Cangaço Novo” é a forma como a violência é apresentada, menos sugerida em discussões e brigas entre membros da classe média e mais em um tom realista que explode em cenas cheias de explosões, tiroteios e mortes.

Cangaço Novo” não é para estômagos fracos, não desviando a câmera de mortes brutais e do vermelho-sangue que marca a trama que mistura religiosidade, assaltos a bancos, eleições, corrupção, traições e a história de uma família destruída em meio ao coronelismo tão característico do Brasil, aqui mais precisamente em Cratará, uma cidade fictícia no interior seco do Ceará.

A seca, e consequentemente, a exploração da população mais pobre é um dos motes da série, cuja primeira temporada se desenrola em meio a uma eleição municipal, com o candidato da situação (filho de um senador corrupto) disputando o posto com um candidato da oposição que, na teoria, representa o povo e as mudanças necessárias. No meio dessa briga política, entra em cena Ubaldo Vaqueiro, agora adulto, descendente de um mito da região que cai na história de paraquedas, vindo de São Paulo atrás de uma herança.

Quando chega a Cratará, Ubaldo descobre uma outra família (uma tia e duas irmãs) e acaba, a princípio a contragosto, se envolvendo com uma gangue de cangaceiros que toca o terror na região assaltando bancos e matando quem se coloca no caminho. É aqui que “Cangaço Novo” se destaca. Com uma trama um tanto familiar, que evoca desde o cinema novo de Glauber Rocha ao mais recente “Bacurau“, e até mesmo a novela “Roque Santeiro” (a volta do messias, no caso do filho dele, à cidade), a série ganha uma roupagem não apenas contemporânea, mas mais ágil e que privilegia a ação, algo que o audiovisual brasileiro, com raras exceções como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite“, nunca soube fazer muito bem.

Mas a série não é apenas um exercício de tensão vazio à lá vários blockbusters hollywoodianos. “Cangaço Novo” tem também coração, graças a um elenco foda que injeta alma e força à trama de disputas políticas e injustiças sociais, com a nova gangue dos Vaqueiros assumindo uma postura meio Robin Hood do sertão.

É o elenco entrosado, que mimetiza muito bem a cara do sertanejo, que vende a história da série, em especial Alice Carvalho, que vive a destemida e impulsiva Dinorah. Formado de rostos basicamente desconhecidos (com as exceções de Marcélia Cartaxo, Hermila Guedes, Ricardo Blat e Luiz Carlos Vasconcelos), o elenco entrega sangue, suor e lágrimas debaixo de um sol de lascar, sendo parte fundamental do sucesso da série.

Cangaço Novo” não é uma série perfeita (nem precisa ser, na verdade), com um roteiro que, às vezes, força situações que parecem um tanto óbvias. Mas a narrativa é conduzida com mão de ferro pelos diretores Fábio Mendonça e Aly Muritiba, dosando muito bem ação e drama, romance e temática social sem deixar de ser um entretenimento muito bem produzido.

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Com um final em aberto cheio de possibilidades de tramas e graças a uma repercussão extremamente positiva, tanto da crítica quanto do público, é difícil imaginar que a série não ganhe uma segunda temporada na Prime Video.

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