
“Não se preocupe, vocês vão todos se encontrar no inferno!”. A fala da personagem de Débora Falabella resume “Fim”, série baseada no livro homônimo de Fernanda Torres que reflete sobre a vida de cinco amigos a partir de suas mortes. Outra cena que capta bem o espírito da minissérie de 10 episódios é o grito de dor que a personagem de Marjorie Estiano dá no penúltimo episódio, um berro de desespero entalado na garganta de uma mulher que sofre pela covardia de um homem.
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Se o livro, lançado em 2013, era uma reflexão sobre os arrependimentos e os erros que cobram seu preço no fim da vida, a série mantém a melancolia e a tristeza, mas vai além ao mostrar o retrato do machismo e da masculinidade toxina que machucou uma geração. E ainda segue fazendo suas vítimas.

A partir de cinco estereótipos diferentes de homens, todos com os seus problemas e questões, a série mostra a dura realidade de mulheres e filhos que foram atropelados pelo machismo estrutural. Ciro (Fábio Assunção) é um covarde que deixa um segredo destruir seu casamento. Silvio (um Bruno Mazzeo carregando na canalhice), um mulherengo que só pensa em si mesmo. Ribeiro (Emilio Dantas) é incapaz de manter um relacionamento e se refugia em meninas bem mais novas. Álvaro (Thelmo Fernandes) é um conformado que parece estar apenas de passagem pela vida. Já Neto (David Junior) é uma especie de banana, um barriga branca controlado pela mulher.
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Mantendo a estrutura de vai e volta no tempo do livro, dividindo-se em duas linhas narrativas, uma no passado (do final dos anos 1960 até os anos 1980) e outra no “presente” (na década de 1990 e anos 2000) a série “Fim” consegue ser ainda mais dura e triste do que o texto de Fernanda Torres. Se o livro deixa a imaginação fluir, a série dá cara, voz e atuações ao destino trágico desses personagens, o que deixa tudo ainda mais real e doloroso. Mas a tragédia não se limita a mortes, doenças e acidentes, mas a própria forma como essas pessoas não conseguem se libertar das amarras de uma sociedade conservadora e machista.

Nesse ponto, o programa de TV apresenta uma mudança fundamental em relação ao livro. Se na literatura, os homens são os protagonistas, na televisão, o papel das mulheres ganha mais dimensão e força, abrindo espaço para que as atrizes, em especial Marjorie Estiano (a personagem mais trágica da minissérie), Débora Fallabella e Laira Garin, brilhem. São elas que sofrem pelos erros dos maridos e que têm que enfrentar o peso do casamento, da maternidade (ou da dificuldade em ter filhos) e das expectativas frustradas.
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Dirigida e produzida com esmero por Andrucha Waddington e Daniela Thomas, a estrutura fragmentada por ser confusa no início, em um vai e vem narrativo que tem se tornado um senso comum no audiovisual atual. Mas logo os atores assumem o posto e dominam a cena de um melodrama rasgado que pode não ser sutil, mas que é o retrato perfeito de uma geração pisoteada e traumatizada por padrões e comportamentos morais ultrapassados e que aprendeu a rimar amor com dor.
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