Priscilla

O cinema de Sofia Coppola é fincado no tédio, em especial de garotas que parecem se sentir inadequadas. Da Revolução Francesa à Guerra da Secessão, dos subúrbios ao Japão, as personagens dos filmes da cineasta parecem deslocadas de seus tempos e espaços, sofrendo por uma inadequação e falta de compreensão dos pais, companheiros e da própria sociedade.

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Priscilla” segue bem esse caminho, com a protagonista primeiro presa aos pais na Alemanha e, em seguida, a um relacionamento abusivo. Uma espécie de cinebiografia, a primeira de Coppola, o longa, no entanto, decepciona porque a protagonista só existe a partir da relação com Elvis Presley. O filme começa e termina com a câmera focando em Priscilla, mas a produção só está interessada na relação dela com o astro de rock, o que não deixa de ser frustrante porque as personagens do cinema de Coppola sempre existiram por si só.

A cineasta mantém seu esmero estético, em especial na direção de arte precisa e nos figurinos e perucas que mostram o amadurecendo da personagem. Mas, se tecnicamente “Priscilla” é bem bonito, o filme se perde em meio a um roteiro um tanto simplista e vazio que pouco desenvolve a protagonista e mesmo seus temas, da diferença de idade entre o casal à relação abusiva que marca o relacionamento do dois.

Priscilla” começa quase como um conto de fadas, com uma adolescente de apenas 14 anos conquistando o coração do maior astro de rock do planeta. Aqui o roteiro já deixa a desejar porque mal há uma razão para Presley se apaixonar pela garota. Os saltos temporais tornam tudo ainda mais vago, até o conto de fadas dar lugar a um relacionamento tóxico em que Presley trata Priscilla como uma boneca fácil de ser manipulada, um troféu a ser exibido e uma esposa submissa, sempre rodeada de homens, os “parças” de Presley, que a veem apenas como um objeto.

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Nesse sentido, o longa ganha pontos graças a escolha do elenco. No alto de sua altura, Jacob Elordi (que cria um Elvis bem menos romantizado do que o de Austin Butler) manipula a baixinha Cailee Spaeny deixando ainda mais claro a fragilidade e a dependência da personagem. Mas a necessidade de cobrir toda a relação entre ambos não desenvolve muito as questões, com a produção saltando de evento em evento até que, meio do nada, Priscilla decide se libertar do casamento.

Ainda que o cinema de Coppola privilegie o banal em detrimento de uma narrativa mais marcada e convencional, em “Priscilla”, a estratégia não parece funcionar, já que falta uma amarração que dê coesão a um roteiro que parece uma colagem de cenas aleatórias. Não que o filme seja ruim. Coppola não faz filmes ruins. Mas falta força e impacto a um longa que segue o caminho contrário ao frenetismo do “Elvis” de Baz Luhrmann, mas que parece silencioso e sutil demais.

O ritmo um tanto lento e contemplativo acaba prejudicando também a atuação de Cailee Spaeny, que venceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza. Na primeira parte do longa, graças a uma fotografia escura demais que praticante esconde o rosto da atriz, ela parece uma boneca e uma mocinha ingênua de novela das seis.

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A atriz tenta dar estofo à personagem, em especial quando ela se dá conta da maneira manipuladora que Elvis a trata. Mas a falta de uma dramaticidade mais forte do roteiro deixa que a própria caracterização (graças às mudanças de figurino e peruca) determine a evolução da personagem. O resultado é ok e bonito de ver. Mas o cinema de Sofia Coppola já nos ofereceu bem mais do que apenas beleza.

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