
Apesar da extensa carreira, dividida entre ficção e documentários, Wim Wenders nunca caiu realmente nas graças do grande público. Fazia tempo também que ele não lançava um filme narrativo realmente aclamado pela crítica, caso de títulos como “Paris, Texas” e “Asas do Desejo” (diferente dos documentários “Buena Vista Social Club”, “Pina” e “O Sal da Terra”, os três últimos indicados ao Oscar).
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É lindo então ver o diretor alemão entregar um trabalho tão bonito e delicado quanto “Dias Perfeitos”, vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes e indicado ao Oscar de Filme Internacional. Prestes a completar 80 anos, Wim Wenders dirige um de seus melhores trabalhos, revezando-se entre silêncios e canções de Lou Reed, Patti Smith, The Velvet Underground e Nina Simone para narrar a rotina quase imutável de um senhor de idade que trabalha lavando banheiros em Tóquio.

À primeira vista, a premissa de “Dias Perfeitos” não parece empolgar, com a câmera seguindo os passos de Hirayama, um homem solitário e calado que ocupa seu tempo entre o trabalho ordinário, tirar fotos das árvores de um parque onde almoça e cuidar das plantas que tem em casa. Em um mundo cada vez mais acelerado, em especial em uma cidade como Tóquio, entregue às inovações, Hirayama parece alguém deslocado do tempo e espaço. Ele usa uma câmera analógica para tirar as fotos, ouve música no carro em fitas cassetes e compra livros físicos em um pequeno sebo.
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Pouco sabemos sobre ele, mas é por meio de seu olhar que o filme reflete sobre questões inerentes ao ser humano: envelhecimento, passagem do tempo, rotina, tédio, propósito e, principalmente, a forma como encaramos a vida. Enquanto seu ajudante mais jovem questiona a dedicação de Hirayama a um trabalho tão banal, o protagonista o executa com esmero (e paixão?), mesmo que, para a sociedade, ele siga invisível.

Mas Hirayama não é invisível para Wim Wenders e para o ator Koji Yakusho (de “Memórias de uma Gueixa”, “Babel” e uma vasta gama de produções japonesas), que pouco fala, mas entrega tudo no olhar. Se a sociedade não enxerga Hirayama, Yakusho o incorpora com carinho e respeito, nunca deixando que o personagem pareça conformado ou amargo com os rumos da vida, dando uma dignidade tremenda a um personagem esquecido no caos do dia a dia de qualquer grande cidade.
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O resutado é de uma delicadeza e beleza tocantes, com Wim Wenders transformando rotina em poesia e “tédio” em emoção. Com um ritmo lento que mimetiza a própria calma com que o personagem vê a vida, “Dias Perfeitos” vai conquistando aos poucos, na medida em que revela pequenos detalhes e relações da vida do protagonista, um personagem apaixonado e apaixonante defendido por um ator que se entrega ao papel de uma vida.
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