
“Pobres Criaturas” começa com um salto mortal que me lembrou a personagem de Winona Ryder se jogando por amor em um rio no gótico “Drácula de Bram Stoker”. Emma Stone não salta para a morte por amor, com a razão do ato da personagem ficando clara ao longo do novo filme do grego Yorgos Lanthimos (dos absurdos “Dente Canino”, “O Lagosta”, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” e “A Favorita”).
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“Drácula de Bram Stoker” e sua estética para lá de rococó não são as únicas referências de “Pobres Criaturas”, que pega emprestada ainda a premissa do livro “Frankenstein” e a insere em um contexto feminista. Na produção de Lanthimos, no entanto, o “monstro” (agora uma mulher) não se revolta por não ser aceito, e sim porque se indigna com a posição da mulher em uma sociedade machista, puritana e polida que abraça à hipocrisia em detrimento da liberdade.
Para satirizar essa sociedade refém de si mesma, o roteiro de Tony McNamara (o mesmo de “A Favorita”) usa como agente do caos uma mulher que se suicida e é ressuscitada por um cientista maluco (um Willem Dafoe desfigurado que trocou as emoções pela ciência). É a partir dessa mulher adulta que age como uma criança que o filme critica o machismo, o puritanismo e o próprio capitalismo que limitam nossa sociedade.

Com uma encenação suntuosa e estranhíssima, com figurinos extravagantes, uma direção de arte exagerada e uma bela fotografia, o longa se desenvolve a partir da própria evolução da personagem, Bella Baxter (à lá a inteligência artificial que ganhou a voz de Scarlett Johansson em “Ela”), em especial no modo como ela se comporta com os homens que a cercam.
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Para Bella Baxter, o cientista maluco que lhe deu vida é como um pai. O ajudante ingênuo do cientista é visto como um potencial marido ideal. Já o advogado (um exagerado Mark Ruffalo que, às vezes, parece uma versão mais controlada de Tom Waits em “Drácula de Bram Stoker“), é a aventura que a personagem tanto anseia.
É por meio dessas relações que Bella subverte o comportamento ideal de uma mulher e questiona o seu papel no mundo, tanto no que diz respeito ao sexo, às regras da sociedade, à forma como os homens se acham dono das mulheres e à própria noção de desigualdade social, com o excesso ou a escassez de dinheiro mostrando outra realidade para a jovem.

Parece muita coisa para um filme só abarcar. E é. Mas o típico humor ácido de Lanthimos ganha ares um pouco menos subversivos, algo que o cineasta já tinha feito em “A Favorita”, o longa (com 10 indicações ao Oscar) que o apresentou ao grande público. Ainda assim, Lanthimos usa o humor e o desconforto como armas de um roteiro cheio de ironia e inteligência, mesmo que de modo nada sutil. O resultado, claro, pode afastar parte do público, em especial os mais conservadores que ficam de cabelo em pé com a naturalização do sexo.
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No centro dessa farsa que usa a opulência das belas imagens quase como catalizador do grotesco, Emma Stone se entrega em uma atuação física que lembra os comediantes do passado. À princípio de forma desengonçada, a atriz vai ganhando mais controle e presença à cada cena. Se, no início, a falta de tato da personagem parece um comportamento infantil, logo ela ganha ares de descontentamento e revolta contra o mundo.
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Em meio a discussões científicas, filosóficas e comportamentais (mas nunca de forma chata ou didática), Bella Baxter quer muito mais do que o mundo está disposto a oferece-la e acredita que pode muda-lo positivamente. Sem pudores, Emma Stone (indicada ao Oscar pelo papel) cria uma personagem cheia de carisma, idealista, anarquista e subversiva. Já “Pobres Criaturas” (que recebeu 11 indicações ao Oscar) consolida Yorgos Lanthimos como um dos grandes autores da atualidade, narrativamente visionário e dono de uma estética de encher os olhos.
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