
Em determinada cena de “O Quarto ao Lado”, John Turturro profere um discurso sobre mudanças climáticas e o fim eminente do mundo. O ator, o filme e Pedro Almodóvar tentam estabelecer uma relação entre essa ideia e a personagem central que está prestes a cometer eutanásia. Completamente descolada do tom do longa, a cena acaba servindo como um resumo do próprio filme, uma produção que tenta a todo custo ser do cineasta espanhol, mas parece ser uma cópia distante em que tudo é hermético e limpinho demais.
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Para um filme que fala sobre eutanásia e morte, tudo em “O Quarto ao Lado” soa frio e distante. Da encenação elegante que mostra uma elite antenada com arte e cultura às atuações polidas demais de Tilda Swinton e Julianne Moore, nada no primeiro longa-metragem na língua inglesa de Pedro Almodóvar me convenceu ou comoveu. Enquanto a narrativa parece engessada, o longa segue até o fim sem dizer a que veio, mesmo que o cineasta utilize elementos clássicos de seu cinema, da trilha sonora de Alberto Iglesias às tradicionais cores fortes que marcam sua fotografia, direção de arte e figurinos.
Em “O Quarto ao Lado”, Tilda Swinton vive uma mulher com câncer terminal que reencontra depois de anos uma grande amiga, vivida por Julianne Moore. Em uma primeira longa conversa, as duas colocam o papo em dia enquanto o filme apresenta alguns flashbacks para ilustrar, de forma totalmente desnecessária, o que elas conversam.
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Passada essa primeira parte, que já demonstra um certo desconforto de Almodóvar com a língua inglesa, a trama parece entrar mais nos eixos quando a personagem de Swinton pede que a amiga a acompanhe em uma viagem que terminará com a sua morte autoinflingida. Até aí tudo bem, mas nada parece no lugar em uma história que discute sem muita força eutanásia, relações entre pais e filhos, guerra ou mesmo meio-ambiente.
Atrizes competentes, Tilda Swinton (que já havia trabalho com Almodóvar no curta em inglês “A Voz Humana”) e Julianne Moore tentam ao máximo dar alguma emoção ao filme, mas as próprias parecem pouco à vontade em cena, trabalhando em um registro quase tão artificial quanto o filme que as cerca. Enquanto Moore não necessariamente precisa convencer como escritora de sucesso, Swinton falha em dar autenticidade a uma correspondente de guerra, como se a profissão da personagem fosse um mero capricho do roteiro, baseado no livro “What Are You Going Through”, de Sigrid Nunez.
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Se nos curtas em inglês “A Voz Humana” e “Estranha Forma de Vida”, Pedro Almodóvar parecia limitado pelo formato ao testar suas habilidades em outra língua, em “O Quarto ao Lado”, o diretor deixa claro que seu hábitat natural é realmente os excessos e exageros do cinema espanhol.
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