Disclaimer

Em tempos de pós-verdade, quando maquiamos os fatos para que eles melhor nos sirvam, “Disclaimer” começa louvando as técnicas narrativas e de busca pela verdade de Catherine Ravenscroft, uma jornalista documentarista que acaba de receber um importante prêmio. Mal sabe ela, no entanto, que sua vida está prestes a virar de ponta cabeça em virtude de um acontecimento do passado que ela fez questão de apagar de sua memória. Esse fantasma de antigamente chega por meio de um livro, que conta com detalhes o tal acontecimento, definitivo na vida de um casal mais velho que tem a vida destruída por ele.  

Acompanhe Esse Filme que Passou Foi Bom também no Instagram 

É por meio desse livro e das tragédias, a do passado e as anunciadas, que Alfonso Cuáron narra os dramas dos personagens na minissérie da Apple TV Plus, seu primeiro trabalho desde o sucesso e o segundo Oscar por “Roma”. Indo e vindo no tempo e se dividindo em várias linhas narrativas, Cuáron parece querer mimetizar o estilo do amigo Alejandro González Iñárritu, que fez sua fama em produções que entrelaçavam tramas como “Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel”.

Cuarón, no entanto, está menos interessado em firulas narrativas (ainda que elas existam em “Disclaimer”), preferindo refletir sobre como escolhemos e interpretamos os fatos que nos interessam em busca da verdade que preencherá vazios ou acalentará culpas. E a minissérie segue exatamente o caminho da culpa e da vergonha para narrar uma história de vingança. 

Acompanhe Esse Filme que Passou Foi Bom também no Instagram 

Nesse sentido, ainda que em razão de circunstâncias diferentes, a personagem interpretada por Cate Blanchett parece vivenciar um inferno similar ao vivido pela atriz em “Tár”. Se no filme sobre uma condutora de orquestra Blachett sofre com que a cultura do cancelamento por causa de seu comportamento predador, em “Disclaimer”, a personagem da atriz vê sua família e reputação ruir ao ser silenciada pelo passado que bate à sua porta. Esse passado surge na pele de um Kevin Kline assustador que traça um plano de vingança que pretende impor na jornalista a mesma dor que foi imposta a ele e à esposa (uma Lesley Manville desconcertante). 

O resultado dessa trama cheia de implicações éticas e morais é uma grande novela, dirigida com todo esmero e competência por Alfonso Cuáron. Enquanto a história exala sordidez, as imagens de “Disclaimer” buscam a beleza, seja no céu constamente cinza e úmido de Londres ou na ambientação ensolarada de uma viagem de férias à Itália que desencadeia todo o plot. Lindamente filmada e narrada com polidez, seja na narração literária de Indira Varma (que remete à “A Época da Inocência”, de Martin Scorsese) ou na voz dos personagens que, eventualmente, assumem esse papel de contar detalhes e desvendar o mistério da trama.

Para saber onde ver os filmes, pesquise no JustWatch

Dividida em sete partes que vão ganhando em tensão e com um elenco dos deuses que se quebra diante dos olhos do espectador, “Disclaimer” reflete ainda sobre como as mulheres são sempre questionadas sobre suas condutas. Sabendo do que lhe espera, Catherine Ravenscroft se cala apenas para ser julgada e ter que lidar com as consequências de um acidente 20 anos depois. Se o final feliz não vem, é porque ninguém sai incólume quando a real e dilacerante verdade vem à tona. Apesar do esmero e pretensão estética, “Disclaimer” pode ser em sua essência um novelão. Mas é um baita novelão!

Leia também:
O Casal Perfeito
Bebê Rena
Ripley

Deixe um comentário