O Agente Secreto

O Brasil mal ganhou o Oscar de melhor filme internacional por “Ainda Estou Aqui” e já temos um sério candidato a receber indicações na premiação com “O Agente Secreto”, não apenas nesta categoria, mas em outras como direção e ator, para Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura, respectivamente. Depois de ganhar dois prêmios importantes no último Festival de Cannes (para o diretor e o ator) e passar por outras tantas mostras e exibições especiais, o longa chega em novembro ao circuito nacional cercado de expectativas e com o sucesso de bilheteria praticamente garantido.

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O Agente Secreto” não é um corpo estranho na filmografia do ex-crítico de cinema e diretor recifense, flertando com temas já presentes nas obras de Kleber Mendonça Filho. Do olhar estereotipado dos sudestinos sobre o Nordeste (“Bacurau”) ao dinheiro como força que quer passar por cima de tudo (“Aquarius”) e mesmo à memória como fio condutor narrativo (caso do documentário “Retratos Fantasmas”), o filme protagonizado por Wagner Moura é de Kleber do início ao fim, com o diretor aumentando o escopo narrativo com diferentes linhas temporais e uma duração de quase três horas. 
 
Em um registro grandioso que mistura gêneros e se demora em subtramas que em nada afetam a linha narrativa central, “O Agente Secreto” vai conquistando o público com o passar do tempo, à medida que desenlaça os novelos de uma trama repleta de detalhes e pistas falsas que abraçam o ridículo e a tensão na mesma medida. Ora suspense, ora comédia, ora drama de um pai tentando resgatar o filho, o filme vai do melodrama ao thriller em minutos. 


 O longa já começa mostrando um corpo jogado no terreno empoeirado de um posto à beira de estrada perto de Recife. Essa é a primeira cena que o personagem de Moura testemunha em sua fuga rumo ao passado e à sobrevivência. O corpo e uma dupla de policiais suspeitos já anunciam que ele tem algo a temer. Em tempos de ditadura, no final dos anos 1970, ele foge de algo que ainda não sabemos, mas afetou sua vida de forma profunda.

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Ainda que se passe durante a ditadura, o foco da trama não é o período em si, mesmo que o discurso “comunismo versus capitalismo” se faça presente. A perseguição política que marcou a época é trocada pela corrupção empresarial e policial, mostrando um Brasil de injustiças que pouco mudou de lá para cá. É nesse país em que o dinheiro fala mais alto que Marcelo/Armando precisa mudar de nome e fugir de uma ameaça de morte. 

Essa é a trama central que guia as 2h40 de filme. Mas “O Agente Secreto” não se acanha em desviar-se desse enredo para dar ouvidos a outras histórias dos coadjuvantes que cercam o protagonista. Nesse sentido, Wagner Moura lança mão de seu habital carisma e talento para passear por essa rede de causos, parando para ouvir e conversar com personagens que existem apenas na periferia do filme, mas ganham corpo e alma nas hábeis mãos de um ótimo elenco (Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Thomás Aquino, a ótima descoberta Tânia Maria, entre outros).


 Wagner Moura atua então como um bom observador e ouvinte, muitas vezes assumindo uma postura passiva no filme. Mas ele nunca sai de cena e está ainda melhor quando o seu personagem se torna centro da ação, seja apenas contando sua história para alguém que quer ajudar, seja fugindo efetivamente de uma tentativa de assassinato.  

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O resultado é um filme envolvente, com uma edição que torna a longa duração ligeira sem apelar para cortes frenéticos e música em alto volume. Alguns desvios podem incomodar um público que prefere narrativas mais diretas e enxutas. O final que remete a algumas produções dos irmãos Coen, com uma resolução que foge do habitual, também pode ser anticlimático para essa mesma audiência que busca mais do mesmo. Mas, ainda que perfeito em sua imperfeição, “O Agente Secreto” é mais uma prova de que o cinema brasileiro passa bem e tem muito a mostrar para o mundo.  

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