Aquarius

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Eu entrei no cinema pronto para odiar Aquarius, novo trabalho do diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho. Primeiramente, eu não gosto da estreia em longa-metragem do rapaz, o ovacionado “O Som ao Redor” (mas acho o curta “Recife Frio” maravilhoso), típico filme nacional com mais cara de aula de sociologia do que de cinema. O hype que a produção ganhou após a polêmica em Cannes, e graças à atual conjuntura política do país, também só me deixou com os dois pés atrás em relação ao lançamento. Mas é impossível ficar imune ao filme. A principal razão é uma só: Sônia Braga.

Menos filme político do que se supõe, “Aquarius” é uma carta audiovisual de amor a Sônia Braga. A atriz destrói tudo à sua frente em uma atuação apaixonada e apaixonante, cheia de graça e garra e exilando carisma. Ela consegue ser tenra, dura, fria, calorosa, cruel e simpática em vários momentos diferentes, sempre demonstrando total domínio dramático e cênico.

Seja em um bar com as amigas, brigando com os filhos ou afrontando um jovem empreiteiro (em um dos momentos mais fortes e claramente políticos do longa), Braga abraça a personagem sem reservas. Sônia parece entender Clara como ninguém e entrega a atuação de uma vida. Ela ainda tem a sorte de receber de presente uma personagem belissimamente bem escrita e cujas principais características são desvendadas em detalhes, do apego ao cabelo à paixão pela música.

Mas apesar de Sônia Braga ser a grande força de “Aquarius”, o filme não é apenas um veículo para a atriz brilhar. Mendonça Filho escreve um roteiro redondo e aposta em uma direção envolvente que deixa de lado o ranço sociológico presente em “O Som ao Redor”, por exemplo. Ele nunca sacrifica a narrativa e a dramaticidade para vender uma ideologia, por mais que ela também seja parte integrante da obra. Mais uma vez, mas do que uma produção com viés político (muito provavelmente o longa seria abraçado sem tantas ressalvas se tivesse sido lançado em outro momento), o diretor faz de “Aquarius” um trabalho sobre passagem do tempo, memória, família, raízes e envelhecer em paz consigo mesmo. E o final, meus amigos, é pura catarse e um sopro de esperança de que existe luz no fim do túnel.

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