40 anos em 40 filmes Parte III – 21 a 30

colcha

Esses não são os melhores filmes do cinema, mas são os melhores para mim. Alguns são bem óbvios, outros nem tanto. Mas são eles que, por alguma razão, me fizeram gostar de cinema. Eu já assisti a muitos filmes ao longo da vida, mas resolvi escolher esses como os que mais representam os meus 40 anos. Aqui seguem mais 10, sem uma ordem de preferência.

40 anos em 40 filmes Parte I – 1 a 10

40 anos em 40 filmes Parte II – 11 a 20

21. O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, EUA, 1991). Direção: Jonathan Demme. Eu adoro filmes sobre serial killers. Esse aqui pode não ser o primeiro desse subgênero, mas é certamente o mais bem sucedido. Lançado sem grandes pretensões, o longa venceu (merecidamente) os cinco principais Oscar e estabeleceu um alto patamar para filmes com temática similar. Tenso, envolvente e assustador, o longa traz uma ótima edição e trilha sonora, um elenco carismático e uma produção detalhista em um desses raros casos em que tudo funciona da melhor forma possível. 25 anos depois do seu lançamento, o filme deu origem a uma sequência equivocada, ao remake de um prequel e a uma série de TV, mas nenhum desses produtos alcançou o seu status de clássico.

22. Wall-E (Wall-E, EUA, 2008). Direção: Andrew Stanton. De todos os filmes perfeitos da Pixar, nenhum é mais perfeito do que “Wall-E”. Na verdade, o longa é genial por uma série de fatores. Ele consegue unir animação, ficção científica (existem referências óbvias a produções como “Blade Runner” e “2001”) e comédia pastelão, em especial uma homenagem a humoristas como Charles Chaplin e Buster Keaton. Ele é delicado, cheio de nuanças e possui várias leituras que vão da dicotomia entre obsoleto e moderno à relação entre gêneros diluída em toques de romance, passando até pela mais óbvia: a questão da preservação do meio ambiente. O filme traz ainda a voz doce e melódica da Sigourney Weaver (ela “é” a nave) e tem uma direção de arte e fotografia de cair o queixo. Mas o maior sucesso do longa é mesmo o seu personagem central: do design à caracterização, Wall-E é, de longe, o melhor personagem da Pixar (a Dory e a Tristeza que me perdoem).

23. Matrix (Matrix, EUA, 1999). Direção: Irmãos Wachowski. É fácil desdenhar “Matrix” hoje. O filme ganhou duas continuações bem inferiores que macularam a mitologia do primeiro longa e foi copiado à exaustão por outras produções cinematográficas, videoclipes e até propaganda de margarina. O longa também envelheceu, seja por causa do uso de uma trilha sonora de música eletrônica hoje datada ou por causa dos diálogos clichês e um tanto constrangedores. Mas, na virada do milênio, não havia nada mais cool do que ver “Matrix” no cinema. Hoje, quase 20 anos depois do seu lançamento, o filme ainda tem um visual impressionante e fica evidente porque ele se tornou tão influente no audiovisual e até na moda (os efeitos especiais ainda convencem, a fotografia e direção de arte são incríveis e os sobretudos pretos e os óculos escuros ganharam novos significados por conta do longa). Hoje, a mistura de kung fu, referências literárias e filosofia barata pode não impressionar muito, muito menos a trama batida de “o escolhido” (presente em praticamente todas as mitologias literárias e cinematográficas), mas, mesmo com várias falhas, “Matrix” ainda é bem divertido.

24. Quatro Casamentos e um Funeral (Four Weddings and a Funeral, ING, 1994). Direção: Mike Newell. Não basta Hugh Grant ser protagonista de uma das melhores comédias românticas da vida (“Um Lugar Chamado Notting Hill”), ele é protagonista logo de duas. Mesmo que as duas tenham suas semelhanças (inglês estabanado e com amigos excêntricos se apaixona por americana), os filmes são bem diferentes: enquanto a parceria com Julia Roberts é mais doce e romântica, esse filme aqui aposta um pouco mais na comédia e subversão. Em um gênero extremamente conservador, o diretor Mike Newell e o roteirista Richard Curtis resolvem inovar ao desmitificar o casamento e juntar os dois protagonistas (um charmoso Hugh Grant e uma bela Andie MacDowell soltando faíscas) sem que eles se casem no final (na verdade, eles fazem juras de amor e prometem nunca se casar). A produção também não se intimida e coloca o casal para transar já de cara, ela sendo noiva de outro – algo inconcebível em um gênero atolado em ideais de amor romântico com mocinhas inocentes e virginais. Mas de inocente e virginal a personagem de Andie não tem nada. Muito mais decidida do que o inseguro Hugh Grant, ela ainda já transou bem mais do que ele (depois de contabilizar pra quantos já deu, ela solta “menos do que a Madonna, mais do que a Lady Di”). Ainda assim, e mesmo sem nunca deixar a comédia de lado, o filme é romântico e melancólico, como na bela cena do funeral.

25. Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, EUA, 1979). Direção: Ridley Scott. Quantos filmes têm o privilégio de iniciar uma das melhores séries do cinema, estabelecer as regras de um gênero e ainda apresentar uma heroína que redefiniria o papel da mulher no cinema e entraria para a galeria de personagens icônicos da sétima arte? Essa ficção científica dirigida por Scott e protagonizada por uma novata Sigourney Weaver consegue tudo isso. Misturando sci-fi e terror, Scott cria um longa tenso que se desenvolve em um ritmo crescente e é amparado por uma ótima fotografia e direção de arte. Mas o maior acerto do diretor são mesmo suas escolhas narrativas: o monstro é pouco visto e nunca sabemos ao certo (na primeira vez que vemos o filme) quem vai morrer ou viver. O resultado é um clássico que marcou época e fundou as bases de uma mitologia que ainda cumpre um papel importante dentro da lógica da cultura pop, influenciando vários filmes e séries até hoje.

26. Antes do Amanhecer / Antes do Pôr do Sol / Antes da Meia-Noite (Before Sunrise / Before Sunset / Before Midnigh, EUA, 1995/ 2004/ 2013). Direção: Richard Linklater. Nas mãos de um diretor qualquer, Jesse e Celine seriam apenas mais dois protagonistas de um romance de cinema independente qualquer. Mas o cineasta Richard Linklater e os atores Ethan Hawke e Julie Delpy vão além e dão outra dimensão aos personagens e aos filmes sobre um casal e seus encontros e desencontros. Mais do que uma trilogia que maximiza tudo o que entendemos sobre o termo “continuação” no cinema, os três longas provocam uma bela e emocionante reflexão sobre o amor e como a passagem do tempo afeta nossos relacionamentos, ainda capturando no meio do caminho a ingenuidade, a decepção e uma visão mais amarga do desenrolar da vida de um casal. Retrato de uma geração que cresceu na década de 1990, conheceu o mundo nos anos 2000 e atingiu a maturidade na confusão da atualidade, é bem difícil ver os três filmes de forma isolada e não como um agridoce panorama sobre o que é viver e envelhecer. Falo mais sobre a trilogia em um post antigo do blog aqui

27. Ligacões Perigosas (Dangerous Liaisons, EUA, 1988). Direção: Stephen Frears. Essa adaptação nem sempre é perfeita graças à teatralidade de algumas situações e ao tom inadequado de parte do elenco (especialmente Uma Thurman e o próprio John Malkovich). Mas as falhas do filme são menores diante da encenação luxuosa, da acidez do texto e da interpretação magnética de Glenn Close (que perdeu o Oscar injustamente para a Jodie Foster). Stephen Frears acerta ao banhar a produção de luxo, ressaltando ainda mais a falsidade moral, a crueldade e a vaidade que cercam os mimados personagens principais. A cena inicial é brilhante, apresentando os personagens por meio de um ritual tedioso e que simboliza a decadência de uma sociedade envolta em riqueza, mas fadada à hipocrisia. A cena final também é de uma dureza que impressiona ainda hoje, quase 30 anos depois do lançamento do longa. De quebra, o filme ainda traz uma Michelle Pfeiffer no auge da beleza.

28. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004). Direção: Michel Gondry. Olhando para trás, esse filme tinha tudo para ser uma bagunça: Michel Gondry é melhor diretor de videoclipes do que de cinema, o roteiro de Charlie Kaufman (vencedor do Oscar) é por demais complexo para um filme hollywoodiano e Jim Carrey e Kate Winslet formam um casal bem improvável. Mas o que poderia ser uma confusão narrativa é, na verdade, um primor de filme que mistura romance, comédia e ficção científica para responder uma das mais misteriosas perguntas que movem a condição humana: e se pudéssemos deletar de nossos mentes quem nos fez sofrer? A resposta pode não ser nenhuma surpresa, mas até chegarmos a ela, Gondry cria um dos grandes romances modernos emoldurado pela cara de perdido de Carrey, pelos cabelos coloridos de Winslet e por um elenco secundário recheado de rostos conhecidos (Mark Ruffalo, Elijah Wood, Tom Wilkinson e uma maravilhosa Kirsten Dunst). Quando o filme termina ao som das lamúrias de Beck (no cover da belíssima “Everybody’s Got to Learn Sometime”), o espectador tem duas certezas: que acabou de ver uma obra-prima e que sofrer por amor faz mesmo parte do caminho.

29. Quase Famosos (Almost Famous, EUA, 2000). Direção: Cameron Crowe. Bastaria uma cena para essa pérola escrita e dirigida por Cameron Crowe ser um dos meus filmes preferidos. Depois da turbulência e da fossa que a segue, os membros de uma banda se reconciliam apenas cantando uma canção pop (a lindíssima “Tiny Dancer”, do Elton John). Mas o trabalho apaixonado e autobiográfico de Crowe é muito mais do que uma simples cena. O filme é uma declaração de amor à música e às pessoas apaixonadas por ela e o ideal que ela representa. Dirigido quase como um perfeito álbum de rock, com momentos de fúria e de calmaria, “Quase Famosos” é uma ode à ingenuidade e à inevitável perda da inocência. É um longa sobre música, paixão, descobertas e a felicidade de se ter a certeza de qual caminho seguir. Tudo isso embalado por algumas das melhores músicas que o rock’n’holl já criou.

30. O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, EUA, 2005). Direção: Ang Lee. Tem um flashback já quase no final do filme que mostra um gesto de carinho entre Ennis e Jack. É uma cena rápida e rara na tragetória de amor entre os dois. Mas o que poderia ser um drama pesado sobre dois homens apaixonados em uma época e situação que não estão a favor deles ganha um tom delicado sob a direção de Ang Lee. Com um ritmo lento e contemplativo, Lee filma sem julgamentos os encontros e desencontros dos dois em cerca de duas décadas, mostrando as consequências que um amor impossível causa em seus protagonistas e naqueles que estão ao seu redor. Amparado pelo ótimo elenco, Lee abre espaço para o não-dito por meio de gestos e olhares que causam muito mais impacto do que palavras. Poucos mais de 10 anos depois do seu lançamento, o longa ainda continua marcante e seria uma aposta arriscada mesmo se estreasse hoje. Coisa de filme clássico.

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