40 anos em 40 filmes Parte I – 1 a 10

Apresentação1

Esses não são os melhores filmes do cinema, mas são os melhores para mim. Alguns são bem óbvios, outros nem tanto. Mas são eles que, por alguma razão, me fizeram gostar de cinema. Eu já assisti a muitos filmes ao longo da vida, mas resolvi escolher esses como os que mais representam os meus 40 anos. Aqui segue os primeiros 10, sem uma ordem de preferência.

1. Thelma & Louise (EUA, 1991). Direção: Ridley Scott. Se eu pudesse ser amigo de duas personagens de cinema, eu escolheria a Thelma e a Louise. Elas não são heroínas e nem levantam a bandeira do feminismo. Elas são apenas duas mulheres comuns, amigas metidas em uma enrascada sem saída. Ridley Scott sabe disso e aproveita um roteiro brilhante e duas atrizes lindas e iluminadas (Susan Sarandon e Geena Davis) para dirigir um clássico, o mais próximo que Hollywood já chegou de fazer um filme pró-mulheres sem discursos ou pieguismo. “Thelma & Louise” não é um longa perfeito, mas é perfeito em sua imperfeição. A trilha sonora de Hans Zimmer envelheceu mal e nem sempre funciona; os homens são quase todos retratados como idiotas e/ou vilões; e o último ato é um tanto corrido. Mas quem se importa quando as personagens (e atrizes) amadurecem diante dos olhos do espectador e Scott dirige o filme mais emocionante de sua carreira. De quebra, o cineasta entrega um dos finais mais corajosos e libertários do cinema.

2. Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, EUA, 1989). Direção: Peter Weir. Eu já perdi a conta de quantas vezes assisti a esse filme. Perdi a conta também de quanto tempo não o revia. Em tempos de cínicos e haters, é fácil desdenhar desse clássico contemporâneo envolto em ingenuidade, seja porque sua fórmula foi desgastada por outros filmes similiares, seja por causa das tatuagens de “Carpe Diem” que pululam por aí. Mas a direção delicada de Weir, a inocência do jovem elenco e um Robin Williams em sua versão mais carismática são qualidades suficientes para deixar de lado as falhas da produção. Quase 30 anos depois de seu lançamento, mesmo que os tempos tenham mudado e muito, o longa ainda é bem pertinente ao tratar com honestidade da dicotomia entre tradição e modernidade, liberdade e submissão. O impacto do filme hoje pode não ser o mesmo, mas toda vez que o revejo me sinto o mesmo adolescente de 15 anos bobo, enrustido e perdido de quando o vi pela primeira vez. E pouquíssimos filmes conseguem esse feito.

3. Upstream Color (Upstream Color, EUA, 2013). Direção: Shane Carruth. Eu já vi muitos filmes, mais de 3 mil, com certeza. De todos esses, Upstream Color é um dos mais bizarros, estranhos e bonitos. Uma mistura de romance, ficção científica e drama existencial, o longa muitas vezes não faz o menor sentido. Mas Carruth super dirige o filme da forma mais sensorial possível, destacando cores e sons para sentirmos a mesma confusão, apatia e vazio existencial dos dois protagonistas, pessoas comuns que passaram pela mesma situação de abuso. Lindo, poético, caótico e surpreendente, esse é o típico exemplar ame ou odeie. Eu amo!

4. Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill, EUA, 1999). Direção: Roger Mitchell. No geral, comédias românticas possuem uma fórmula batida e, por isso, usam a química entre os atores para conquistar o público. Nesse quesito, Hugh Grant e Julia Roberts estão imbatíveis nesse que é um dos grandes exemplares do gênero. Além da química perfeita entre os dois, o filme ainda tem um roteiro maravilhoso e uma direção que salva o longa do esquematismo do gênero, mesmo sem necessariamente fugir dos clichês. A ideia de colocar Julia Roberts, no auge da carreia, interpretando praticamente a si mesma dá o toque final nessa produção doce, divertida e cheia de diálogos impecáveis e situações memoráveis. É um desses típicos filmes que não envelhecem e continuam funcionando perfeitamente mesmo depois de todas as revisões. A cena em que toca “Ain’t No Sunshine” é uma síntese de toda a beleza do longa.

5. Clube da Luta (Fight Club, EUA, 1999). Direção: David Fincher. De longe o melhor trabalho do meu diretor preferido (até seus filmes “menores” me impressionam, como “Vidas em Jogo” e “O Quarto do Pânico), esse é o longa mais subversivo, doentio, violento e genial que eu já vi. Além de tudo isso, sua produção é tecnicamente impecável e traz três interpretações icônicas de Edward Norton, Brad Pitt e Helena Boham-Carter. Cheio de diálogos inteligentes e com uma edição bem esperta, o filme é um exercício audiovisual corajoso que nunca tem medo de expor seu conceito: a sociedade moderna é vazia e doente. Quase 20 anos depois do seu lançamento e “Clube da Luta” continua atual e bem pertinente. Quantos filmes conseguem isso?

6. Velvet Goldmine (ING, 1998). Direção: Tood Haynes. Esse filme é a realização do sonho cinematográfico de qualquer indie fã (todos?) de glam rock e brit pop. Com um roteiro inspirado levemente (ou não tão levemente assim) na relação entre David Bowie e Iggy Pop, Toddy Haynes dirige o filme com toda a afetação e glitter que a história pede, criando de quebra um retrato nostálgico e melancólico sobre uma época que mudou o curso da música pop nos anos 1970 (e da sociedade, por que não?). Com uma trilha sonora dos deuses, o longa ainda traz o elenco indie mais desejado por qualquer diretor (e espectador) no final dos anos 1990: Ewan McGregor, Jonathan Rhys Meyers, Christian Bale e uma maravilhosa e lindíssima Toni Collette.

7. A Época da Inocência (The Age of Innocence, EUA, 1993). Direção: Martin Scorsese. Eu amo esse filme desde a primeira vez que o vi nos cinemas, com 17/18 anos. Na época, eu fiquei impressionado com a suntuosidade dessa história de amor impossível entre um advogado tradicionalista e uma mulher divorciada e mal vista pela rígida sociedade novaiorquina do final do século XIX. Dos belíssimos créditos de abertura desenhados pelo Saul Bass, passando pela narração impecável e quase literária de Joanne Woodward, todos os elementos do filme me fizeram um apaixonado pelo trabalho mais polido da filmografia do Scorsese. Mas por trás de toda a delicadeza da encenação, o cineasta cria um retrato cruel de uma sociedade refém das aparências. A linda trilha sonora emula todas as emoções que as personagens não podem expressar e, por trás da direção de arte e figurinos rebuscados, temos um elenco dos sonhos sofrendo por causa de meras convenções: um Daniel Day-Lewis mais lindo do que nunca; uma Michelle Pfeiffer maravilhosa em suas expressões e gestos; e uma Winona Ryder dissimulando inocência. Como bom taurino que guarda mágoas inúteis, nunca perdoei a Academia por não ter indicado o filme, Scorsese e Michelle Pfeiffer ao Oscar. Uma vergonha!

8. Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire, EUA, 1994) Direção: Neil Jordan. 22 anos depois do seu lançamento, esse é o típico filme que eu tenho “orgulho” de ter visto nos cinemas. Dirigido da forma mais suntuosa e afetada possível por Neil Jordan, o longa foi um evento que trazia o elenco masculino (Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas e Christian Slater) mais desejado da 1ª metade dos anos 1990 em uma história de vampiros banhada em homoerotismo. Com a melhor equipe técnica existente (figurinos de Sandy Powell; direção de arte de Dante Ferretti; fotografia de Philippe Rousselot; e trilha sonora de Elliot Goldenthal), Jordan usa vampiros como metáfora para criar um belo filme melancólico sobre vazio existencial e vaidade. Operístico e bem gay, o longa ainda apresentou ao mundo uma novinha Kirsten Dunst. Uma pena que os outros livros da série escrita pela Anne Rice não ganharam uma adaptação tão decente quanto essa.

9. Trainspotting – Sem Limites (Trainspotting, ING, 1996). Direção: Danny Boyle. Há 20 anos Ewan McGregor era descoberto pelo mundo ao fugir da polícia proferindo um dos monólogos mais certeiros do cinema sobre o vazio da existência do ser humano consumista. Nesse meio tempo, a música, as drogas e o próprio mundo mudaram, como profetiza uma das personagens, mas não tanto assim. A premissa do filme que fala sobre drogas, HIV, cultura pop e o grande baque que é torna-se adulto e assumir responsabilidades continua atual e relevante. Com uma direção certeira, uma edição criativa e um ótimo roteiro baseado na obra de Irvine Welsh (única indicação do filme ao Oscar), Boyle criou o retrato da juventude que amadureceu na primeira metade dos anos 90, tudo isso ao som da música eletrônica, do britpop e da eurodance que são a “cara” da época.

10. Tempestade de Gelo (The Ice Storm, ING, 1997). Direção: Ang Lee. Apesar de ter não ter tido o mesmo respaldo de outros de seus trabalhos, esse é o meu filme preferido do Ang Lee. O diretor começa usando uma HQ do Quarteto Fantástico para fazer uma paralelo com a história de duas família vizinhas em um típico subúrbio norte-americano nos anos 1970. Com um elenco maravilhoso, com destaque para Sigourney Weaver, o filme discute o american way of life, política, descobertas sexuais, crise no casamento, traição e paixões adolescentes. A ambientação é gélida, contida e muito pouco é dito por meio de palavras, mas tudo está subentendido nos olhares, gestos e posturas dos personagens. Algumas cenas são de uma delicadeza impressionantes e o final é um tiro de melancolia no peito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s