40 anos em 40 filmes Parte II – 11 a 20

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Esses não são os melhores filmes do cinema, mas são os melhores para mim. Alguns são bem óbvios, outros nem tanto. Mas são eles que, por alguma razão, me fizeram gostar de cinema. Eu já assisti a muitos filmes ao longo da vida, mas resolvi escolher esses como os que mais representam os meus 40 anos. Aqui seguem mais 10, sem uma ordem de preferência.

40 anos em 40 filmes Parte I – 1 a 10

11. A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, EUA, 1967). Direção: Mike Nichols. Esse é um daqueles filmes que eu choro praticamente do começo ao fim, não porque ele é triste, mas pela sutileza da coisa toda. Basta uma canção, por exemplo, para que Mike Nichols apresente seu protagonista e dê o tom desse filme que, a princípio, parece ser apenas uma comédia romântica. Mas graças à direção do cineasta (vencedor do Oscar), ao ótimo roteiro e atuações (Dustin Hoffman e Anne Bancroft destroem tudo pela frente), esse longa é um clássico que fala sobre adultério, assédio, pressão dos pais e do início da vida adulta sem deixar de ser ingênuo e romântico. Além da edição maravilhosa que atribui um ritmo ansioso ao filme, este é um dos primeiros longas não-musicais a usar canções pop como recurso narrativo. O resultado da combinação são algumas cenas lindas, melancólicas e de uma beleza bem delicada. A cena final ainda deixa aquela dúvida de todos no ar: “e agora?”.

12. O Quarto do Filho (La Stanza del Figlio, ITA, 2001). Direção: Nanni Moretti. Filmes sobre perdas sempre são difíceis porque, eventualmente, todo mundo passa por elas. Esse exemplar, no entanto, é de uma beleza e sensibilidade raras. Ao invés de fazer um típico dramalhão, Moretti opta pelo caminho mais sóbrio ao narrar o drama de uma família que perde um filho de um modo bem naturalista e delicado. O diretor deixa os arroubos dramáticos de lado e parte dos gestos, olhares e do cotidiano para mostrar a dor dessa família da forma mais realista possível. No final, ao som da belíssima “By The River”, do Brian Eno, Moretti mostra que, mais do que sobre perdas, seu filme fala sobre o conforto que todos precisamos depois delas.

13. Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream, EUA, 2000). Direção: Darren Aronofsky. A trilha sonora cortante de Clint Mansell já anuncia: esse é um filme assustador. E foi exatamente assustado que saí do cinema a primeira vez que vi esse longa, em plena época de Natal. Aronofsky super dirige e super edita essa descida ao inferno e nunca desvia sua câmera das tragédias anunciadas que acometem seus personagens, quatro pessoas comuns que têm os sonhos destruídos em razão de algum tipo de vício. Mesmo sendo um filme extremamente técnico e que busca a sensorialidade no uso abusivo de cortes, telas duplas e efeitos sonoros, Aronofsky abre espaço para a emoção ao colar nos quatro ótimos atores, todos em interpretações de cortar o coração. O resultado é um filme de tom descaradamente pessimista: o diálogo de Ellen Burstyn na cozinha com Jared Leto é pura depressão e a montagem paralela que mostra o final dos quatro personagens é emblemática e desesperançosa.

14. Amor à Flor da Pele / 2046 (In The Mood for Love / 2046. Hong Kong, 2000/2004). Direção: Wong Kar-Wai. Talvez não exista cineasta que componha mais belas imagens e enquadramentos do que Wong Kar-Wai. Esses dois filmes que dividem o mesmo personagem em situações e espaços de tempo diferentes são o ápice do cinema do diretor. O primeiro coloca dois vizinhos traídos em um romance que nunca se concretiza. Enquanto os personagens desfilam em câmera lenta por cenários apertados e em meio a objetos que quase ganham vida, Kar-Wai constrói um balé de imagens contidas que ganham ainda mais beleza graças à trilha sonora melodramática, ao jogo de espelhos e ao que é e não é mostrado. O segundo segue a história do personagem masculino do primeiro, aqui envolvido com várias mulheres, mas ainda assombrado pela paixão não consumada com a vizinha. Menos envolvente do que “Amor à Flor da Pele”, principalmente por causa da edição embaralhada e da duração mais longa, ainda assim “2046” tem imagens belíssimas, em especial as do futuro protagonizadas por uma andróide com emoções atrasadas.

15. O Talentoso Mr. Ripley (The Talented Mr. Ripley, EUA, 1999). Direção: Anthony Minghella. Apesar de ser mais conhecido por seus filmes de tom épico (“O Paciente Inglês” e “Cold Montain”), o melhor trabalho de Minghella é esse estudo de personagem baseado em uma obra de Patricia Highsmith. Em uma encenação suntuosa que começa solar e termina de forma sombria, o diretor explora texto, imagens e, principalmente, seu ótimo elenco estelar para explorar uma trama que mistura admiração, amizade, inveja, ciúme e desprezo. O bronzeado de Jude Law, a fragilidade de Gwyneth Paltrow, o carisma contagiante de Cate Blanchett e, principalmente, a desenvoltura de Matt Damon (em seu melhor papel) para expressar várias emoções são o centro dessa narrativa que vai se desenvolvendo em crescendo até chegar ao final melancólico e desesperançoso, tudo isso ao som do jazz, que empresta seu ritmo ao longa.

16. Cidade dos Anjos (City of Angels, EUA, 1998). Direção: Brad Silberling. Análises estéticas à parte, gostar ou não de um filme está relacionado, principalmente, ao momento em que você o assiste a primeira vez. Em 1998, eu tinha 22 e fui ver esse longa no cinema com a minha mãe. Na época, eu era um poço de ingenuidade; a Meg Ryan era linda e a atriz mais bem paga de Hollywood; e o Nicolas Cage ainda era um bom ator. Dito isso, eu deixei de lado todos os erros do roteiro (simplista e mal construído) e me entreguei a esse romance esotérico entre um anjo e uma médica. Parte da culpa foi da boa química entre Ryan e Cage e do olhar delicado de Silberling, que cria belas cenas dos anjos em cima de prédios (eu tenho pânico de altura) ou se reunindo na praia ou em bibliotecas. As imagens de Ryan com o rosto ensolarado também ganharam meu coração. Se eu tivesse visto o filme pela primeira vez hoje, eu acharia tudo uma grande bobagem. Mas, às vezes, a primeira impressão é a que fica. Algum tempo depois, assisti ao filme alemão que serviu de base para esse remake (“Asas do Desejo”, do Wim Wenders) e achei ele extremamente chato. Sim, a versão hollywoodiana deixa de lado a filosofia e poesia do alemão e aposta no maniqueísmo e no melodrama, mas eu nunca gostei de poesia mesmo. PS: a trilha sonora do filme é maravilhosa.

17. Magnólia (Magnolia, EUA, 1999). Direção: Paul Thomas Anderson. Outro dia estava eu em uma roda de amigos e um deles disse que nunca tinha visto “Magnólia”. Pior: ele não sabia de que filme se tratava. Julguei. Por quê? Porque se eu tivesse que escolher apenas um filme para levar a uma ilha deserta, seria ele. Porque Paul Thomas Anderson criou uma obra-prima (leia-se “obra-prima” do modo mais afetado possível), uma ópera lindamente orquestrada e dirigida com vigor sobre abuso, arrependimento e culpa. Porque o longa divide sua narrativa entre nove personagens totalmente fudidos, mas consegue tirar beleza disso. Porque o filme é um desfile de bons atores proclamando os melhores diálogos (Julianne Moore merecia um Oscar por cada uma de suas cenas; e Tom Cruise nunca esteve tão bem). Porque o filme é a melhor aula de direção, edição e roteiro e ainda é uma declaração de amor à sétima arte. Porque depois de um monólogo do caralho sobre arrependimento, Anderson simplesmente para a narrativa e coloca seus personagens para cantar. Porque a trilha sonora é foda, com direito às canções mais lindas da Aimee Mann e, de quebra, do Supertramp. Porque eu vi esse longa na sala de cinema que, talvez, mais tenha marcado minha formação cinematográfica, o extinto Studio Beira-Mar (lá em Fortaleza). Porque é impossível ver esse longa com 24 anos sem ficar marcado. E porque quem não o viu deveria voltar 5 casas no Jogo da Vida (e quem viu e não gostou, volte logo 10).

18. Assassinos por Natureza (Natural Born Killers, EUA, 1994). Direção: Oliver Stone. A razão desse filme estar nessa lista é porque ele foi o primeiro longa com censura 18 anos que vi no cinema (ainda existe isso?). Na época, eu adorei essa viagem violenta e que mistura diferentes linguagens e formatos para narrar a história de um casal de serial killers. Apesar da temática bem atual (como a mídia transforma gente “comum” em heróis), hoje o filme parece datado e mais exagerado do que nunca. A mistura de filtros, animação, edição de videoclipe e mais o diabo a quatro mantém a atenção do espectador, mas o roteiro (inspirado em uma história de Quentin Tarantino antes de ser Quentin Tarantino) é simplista e todo o elenco está trabalhado no overacting. O tom de sátira nunca encontra um equilíbrio diante da violência exacerbada e da direção hiperbólica de Stone, aqui um tanto menos chato do que o habitual. De qualquer forma, Stone cria algumas imagens interessantes, e a produção é a cara dos anos 1990.

19. Donnie Darko (Donnie Darko, EUA, 2001). Direção: Richard Kelly. Qualquer filme que use Duran Duran, Joy Division, Tears for Fears e Echo and the Bunnymen na trilha sonora merece o meu respeito. Mas esse longa é muito mais do que o uso de canções perfeitas. A princípio, “Donnie Darko” parece um filme adolescente de high school, mas a mistura de temas como viagens no tempo, religião, política, esquizofrenia, pedofilia e um coelho gigante deixa claro que a produção vai muito além de uma simples fórmula de gênero cinematográfico. Com um ótimo elenco (Jake e Maggie Gyllenhaal, Drew Barrymore, Patrick Swayze e uma maravilhosa Mary McDonnell), o filme é melancólico e sombrio na medida certa e traz uma trama nada óbvia que nunca parece fazer muito sentido, mas funciona mesmo assim. Quinze anos depois de seu lançamento, o filme é hoje um cult e ganhou uma versão do diretor e um péssimo spin-off sobre a irmã mais nova do protagonista. Já o promissor Richard Kelly afundou sua carreira com as bombas “Southland Tales” e “A Caixa”, mas será sempre perdoado por dirigir essa pérola da estranheza.

20. Praia do Futuro (Praia do Futuro, BRA, 2014). Direção: Karim Ainouz. Talvez exista um cineasta com maior talento para escolher títulos poéticos para seus filmes (“O Céu de Suely”, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, “O Abismo Prateado”) do que Karim Ainouz, mas certamente não há diretor brasileiro que toque mais fundo no meu peito do que ele. De seus filmes, “Praia do Futuro” é meu preferido e o que mais me faz chorar. Talvez porque eu tenho crescido na praia do título. Talvez porque, como o protagonista, eu tenha fugido de lá para tentar ser quem eu realmente sou. Talvez apenas porque o filme seja realmente de uma beleza singular, principalmente por causa de seu desapegado narrativo ou pela poesia de suas imagens. O abraço do afogado. Um herói partido ao meio. Um fantasma que só fala alemão. Os dois gritando em meio às rochas. A não descida do trem. Os dois dançando depois que Donato decide ficar. O aquário. A trilha sonora. O reencontro dos irmãos. A fuga de moto. Os três andando na imensidão da praia vazia e gelada. O balé final das motos. O olhar de melancolia do Wagner Moura. David Bowie. E eu perco a conta de quantas vezes esse filme me destrói.

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