40 anos em 40 filmes Parte IV – 31 a 40

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Esses não são os melhores filmes do cinema, mas são os melhores para mim. Alguns são bem óbvios, outros nem tanto. Mas são eles que, por alguma razão, me fizeram gostar de cinema. Eu já assisti a muitos filmes ao longo da vida, mas resolvi escolher esses como os que mais representam os meus 40 anos. Aqui seguem mais 10, sem uma ordem de preferência.

40 anos em 40 filmes Parte I – 1 a 10

40 anos em 40 filmes Parte II – 11 a 20

40 anos em 40 filmes Parte III – 21 a 30

31. Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker’s Dracula, EUA, 1992). Direção: Francis Ford Coppola. Eu poderia simplesmente dizer que esse é um dos meus filmes preferidos, mas eu vou adiante e polemizar dizendo que, mesmo com defeitos, ele é o melhor trabalho do Francis Ford Coppola (não troco ele por nenhum “O Poderoso Chefão” ou “Apocalipse Now”). Nem a atuação fora do tom de Anthony Hopkins, nem a peruca grisalha do Keanu Reeves (que fica branca, grisalha ou preta sem explicação) ou a subtrama chatinha do personagem do Tom Waits conseguem macular essa preciosidade dirigida da forma mais operística, afetada e melodramática por Coppola. O diretor usa sombras, névoas e tecidos esvoaçantes para criar uma filme suntuoso, sexy, romântico e mórbido centrado em belas imagens e nas ótimas atuações de Gary Oldman e Winona Ryder.

32. Seven. Os Sete Crimes Capitais (Seven, EUA, 1995). Direção: David Fincher. Nas mãos de um diretor qualquer, esse seria mais um entre tantos filmes sobre um serial killer a chegar nos cinemas pós “O Silêncio dos Inocentes”. Mas depois de quase afundar logo em sua estreia como cineasta (“Alien 3”), seguindo os passos de uma elogiada carreira como diretor de videoclipes, Fincher transforma uma história banal em um ótimo thriller que tem a apatia dos que vivem em grandes metrópoles como pano de fundo. Usando os sete pecados capitais como mote, o cineasta discute a banalidade da vida moderna (coisa que voltaria a fazer em “Clube da Luta”) banhando o longa em uma fotografia e direção de arte lúgubres e com uma edição primorosa (a perseguição de Brad Pitt ao psicopata é uma aula de tensão e montagem). De quebra, Fincher ainda entrega um dos finais mais mórbidos e desesperançosos do cinema na década de 1990.

33. Blade Runner. O Caçador de Andróides (Blade Runner, EUA, 1982). Direção: Ridley Scott. Esse filme tinha tudo para ter envelhecido. Da trilha sonora oitentista à direção de arte detalhista e sombria, passando pelos efeitos especiais, não são poucos os elementos que poderiam ter ficado datados. Mas, por incrível que pareça, 34 anos depois de seu lançamento, esse marco da ficção científica continua belíssimo e fascinante. Por mais que a trama, inspirada em um livro de Philip K. Dick, não seja muito desenvolvida e pareça episódica, Scott deixa a ambientação caótica e o clima úmido conquistarem o espectador, justificando a ressonância imagética que o longa possui ao virar referência e influenciar praticamente todas as produções sic-fi lançadas posteriormente. Entre sombras e neon, o filme discute o que nos torna humanos (memórias e emoções) e possui pelo menos três personagens icônicos, entregues a Sean Young, Daryl Hannah e Rutger Hauer, este último dono de um discurso poético e melancólico que ajudou o longa a se tornar um clássico cult atemporal.

34. Billy Elliot (Billy Elliot, ING, 2000). Direção: Stephen Daldry. Lá no fundo, a premissa desse filme é tipo música da Xuxa “Tudo pode ser, só basta acreditar”. Mas Daldry pega uma premissa quase boba e piegas e entrega um longa maravilhoso sobre a beleza da inocência e do amor incondicional entre família. Tudo na produção funciona lindamente, da trilha sonora oitentista envolvente e dinâmica, passando pelo contexto sócio-econômico que dá toda uma diferença, chegando a um elenco carismático cujo personagem central é defendido de forma agridoce e honesta por um lindo Jamie Bell. Em tempos conservadores em que nossa sociedade hipócrita insiste em regredir novamente aos moldes feudalistas, o filme vira ainda uma alegoria política em que todos merecem uma vida melhor. E de Billy pulando feito criança na cama no começo ao seu belo salto profissional no final, sua trajetória é retratada de forma perfeita nessa delícia de filme.

35. Ela (Her, EUA, 2013). Direção: Spike Jonze. De todos os robôs, replicantes e seres com inteligência artificial criados pelo cinema, nenhum é mais real e assustador do que Samantha. Mesmo sem ter um corpo, ela é capaz de sorrir, se emocionar, ficar triste, se apaixonar, magoar e destruir corações. Ainda que Spike Jonze force a mão para que seu filme seja calculadamente melancólico (a linda trilha sonora do Arcade Fire, a fotografia em tons pasteis e a direção de arte e figurinos hipsters ajudam), nada atrapalha a beleza desse roteiro que toca em vários pontos comuns a todos nós: a solidão, tristeza e desesperança do fim de um relacionamento; a felicidade, desejo e excitação de um novo amor. Por meio de personagens inseguros e complexos, o diretor/roteirista discute nosso atual estado de entorpecência em que estamos cada vez mais próximos e mesmo assim distantes. Algumas situações são bem tristes: a mulher linda, mas incapaz de se aventurar porque quer um relacionamento sério; pessoas incapazes de dizer o que sentem aos que amam com suas próprias palavras e contratando alguém mais “capaz” para fazer isso por elas; ou mesmo a falta de interação entre as pessoas nas ruas, todas imersas em seu próprio mundo de SOs. Mas nenhuma fala é tão triste e forte como a que Theodore diz para Samantha antes dos dois se amarem pela primeira vez: “Sabe, às vezes, acho que já senti tudo o que vou sentir na vida. E daqui pra frente, não vou sentir nada de novo, só versões inferiores do que já senti”.

36. Gattaca. Experiência Genética (Gattaca, EUA, 1997). Direção: Andrew Niccol. Em um futuro não tão distante, a humanidade é dividida entre pessoas geneticamente perfeitas e inválidos. Claro que, seguindo a lógica discriminatória da nossa sociedade atual, os inválidos sofrem preconceito e são renegados pela elite genética. Com essa premissa absurdamente plausível, ainda que tecnologicamente inviável (por enquanto), Niccol consegue criar uma ficção científica gélida e, ao mesmo tempo, melodramática, misturando romance, assassinato e disputa entre irmãos. A direção de arte hermética, a fotografia amarelada e a belíssima trilha sonora de Michael Nyman casam perfeitamente com a beleza do trio central (Ethan Hawke, Uma Thurman e Jude Law beirando a perfeição) e ajudam a transformar esse longa em uma das sci-fi mais interessantes dos anos 1990 e um dos meus filmes prediletos.

37. E tua mãe também (Y Tu Mamá También, MEX, 2001). Direção: Alfonso Cuarón. Cuarón alcançou a perfeição técnica em longas como “Filhos da Esperança” e “Gravidade”, mas é esse o seu melhor trabalho. Mais emocional e carismático do que os demais, esse filme traz um roteiro brilhante (indicado ao Oscar, coisa rara em si tratando de uma produção estrangeira) sobre amizade e despedidas. Já demonstrando sua característica habilidade técnica, o diretor usa o batido formato de um road movie para discorrer sobre como algumas pessoas e alguns momentos são importantes e nos definem. Mesmo sempre focando no trio central, Cuarón desvia sua câmera para mostrar um pouco da realidade do seu país, contextualizando e dando vida a personagens apenas acidentais. A narração em off e suas digressões também serve a esse favor. O resultado é filme sensual e otimista, ainda que tenha um desfecho bastante melancólico.

38. Moulin Rouge! Amor em Vermelho (Moulin Rouge!, EUA, 2001). Direção: Baz Luhrmann. No geral, eu não gosto de musicais. O principal fator é a própria música, geralmente cafona, orquestrada e simplesmente ruim e desinteressante. Baz Luhrmann opta então por substituir a típica música chata desse tipo de filme por canções pop e cria uma obra-prima do gênero ao misturar com sucesso Madonna, Elton John, David Bowie, U2, Queen, The Police e mais uma penca de gente. O resultado é exuberante e vigoroso, cheio de cores, glitter, pumas e paetês. Ainda que a estética da produção seja a maior razão de seu sucesso, Baz ainda acerta na escolha dos protagonistas, uma Nicole Kidman e um Ewan McGregor soltando faíscas e no auge da beleza e talento. Apostando no caos, na breguice e no exagero, o cineasta usa uma câmera epiléptica e uma edição de videoclipe para esconder a trama bobinha com cara de novela das seis, um dos defeitos do longa (junto com o vilão caricato demais). Mas, 15 anos depois do seu lançamento, o filme sobrevive às suas imperfeições e é o grande musical do cinema contemporâneo (minha cena preferida é “El Tango de Roxanne”).

39. Encontros & Desencontros (Lost in Translation, EUA, 2003). Direção: Sofia Coppola. Em uma determinada cena, Charlotte pergunta para Bob Harris se as coisas se tornam mais fáceis com o passar da idade? A resposta é vaga, mas casa perfeitamente com o espírito do longa. Sem uma trama convencional para chamar de sua, o segundo filme de Sofia Coppola lança o seu olhar sob a vida de dois estranhos que estão, de certa forma, presos em um hotel na luminosa e misteriosa Tóquio. Fugindo de uma narrativa mais tradicional em que algo precisa ser resolvido, Coppola prefere apenas observar a dinâmica dessas duas pessoas que se encontram e transformam o que antes era uma rotina entediante em uma experiência marcante. Bill Murray e Scarlett Johansson usam a diferença de idade para criar uma química perfeita e ganham cenas lindas, em que Coppola prefere mais observar do que tirar conclusões (o que os dois vivem é apenas uma bela amizade ou o início de um romance?). O resultado é melancólico e cheio de força, com destaque para a lindíssima trilha sonora que sempre me faz sentir saudades de dançar ao som de Phoenix.

40. Contato (Contact, EUA, 1997). Direção: Robert Zemeckis. Da cena inicial que mostra uma câmera se afastando no espaço à viagem espacial deliberadamente inspirada em “2001”, eu amo essa ficção científica baseada no livro de Carl Sagan. Logo depois de ganhar o Oscar por “Forrest Gump”, Robert Zemeckis dirige essa obra-prima que mescla drama e ficção científica e discute ciência, fé e religião apontando suas diferenças e acertando em suas similaridades. No centro desse filme tecnicamente perfeito, Jodie Foster empresta seus grandes olhos azuis para seu melhor papel, uma cientista apaixonada e cética que precisa reavaliar suas convicções depois de passar por uma experiência única. Emocionante, épico e um retrato político da época em que foi lancado, com direito à participação do então presidente dos EUA Bill Clinton, “Contato” é uma dessas ficções científicas que provam que o gênero é um dos mais interessantes e ricos do cinema.

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