Jane Schoenbrun, do já cultuado “Eu Vi o Brilho da TV”, não esconde sua paixão pelo audiovisual, inclusive pela mídia física, em especial os datados VHS e DVDs. Em seu novo trabalho, o igualmente já cultuado “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo & Morte” (vencedor do Queer Palm em Cannes agora em 2026), a cineasta queer já demonstra esse amor logo na abertura do filme, que apresenta todo o universo da trama a partir da construção de uma mitologia cinematográfica: a franquia Camp Miasma, em que um serial killer não-binário (chamado Little Death) mata suas vítimas com uma espécie de arpão.
Se em “Eu Vi o Brilho da TV”, Schoenbrun usa a obsessão por um programa de TV para refletir sobre questões relacionadas à identidade e ao pertencimento, em “Acampamento Miasma”, ela segue caminho similar, se apropriando dos slashers para discorrer sobre repressão sexual e desejo. A primeira referência da produção é, obviamente, uma das primeiros e principais franquias de slashers, “Sexta-Feira 13”, em que o psicopata Jason massacra adolescentes em um acampamento.
Mas Jane Schoenbrun não quer apenas fazer mais um slasher, repetindo, muitas vezes, a lógica de outra franquia, “Pânico”, pegando os elementos característicos desse subgênero e os reinserindo dentro de sua proposta de cinema. Nesse ponto, “Acampamento Miasma” funciona como um belo exercício de estilo, com a diretora filmando tudo de forma quase etérea, como se a trama fosse uma grande alucinação e um videoclipe do M83 (que, não por acaso, toca na trilha sonora), algo que ela já fazia no anterior “Eu Vi o Brilho da TV”.
O problema de “Acampamento Miasma” é que a cineasta parece sempre deslumbrada demais com sua encenação e personagens (defendidas pelas ótimas Hannah Einbinder e Gillian Anderson), deixando de lado o desenvolvimento da história para privilegiar o conceito do longa. Da metade para o final, por exemplo, a cineasta parece perder a mão, com a loucura do longa escalando em uma onda de metalinguagem que tira a produção dos eixos.
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“Acampamento Miasma” perde assim em todas as suas frentes, pouco funcionando como uma comédia (o riso parte basicamente do ridículo das cenas do filme dentro do filme, com sangue jorrando à la “Kill Bill”, por exemplo) e, principalmente, como uma produção de terror. Schoenbrun usa o slasher como ponto de partida, mas esquece o suspense e o terror pelo caminho, enquanto prefere usar o longa para explorar uma alegoria.
Não que a cineasta não tivesse deixado isso claro desde o início. Se em “Eu Vi o Brilho da TV”, ela já deixava evidente sua falta de apego ao convencional, aqui, ela verbaliza praticamente toda a proposta do longa em diálogos para lá de expositivos. Os personagens, por exemplo, falam sobre como o filme dentro do filme será uma espécie de slasher “woke” ou, assim como nos capítulos do “Pânico”, dissertam sobre estrutura narrativa e as convenções do gênero.
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Em determinado momento, por exemplo, a cineasta queer (Hannah Einbinder) – que quer trazer a atriz reclusa (Gillian Anderson) de um filme original para o seu reboot – expressa que tal parte da produção é transfóbica. Em outra, durante uma reunião de trabalho, os coadjuvantes reforçam, várias vezes, que tudo não passa mesmo de uma alegoria.
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E assim “Acampamento Miasma” segue, como se não confiasse em nenhum momento que o próprio espectador é capaz de tirar as próprias conclusões. O resultado é um filme que funciona mais pelo conceito do que pelo desenvolvimento narrativo em si. Além da bela encenação, o destaque mesmo é a ótima química entre as duas atrizes, que, claramente, estão se divertindo, às vezes bem mais do que o público.
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