Eu matei minha mãe

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Filmes com pretensão de serem “modernos” geralmente dividem a crítica. Alguns amam as fírulas narrativas, a montagem frenética, o uso pop da trilha musical e o ar blasé e supostamente poético desses filmes que versam sobre drogas, sexo e relacionamentos em um mundo cada vez mais urbano e acelerado. Outros acham isso tudo clichê e esquemático e acreditam que tais recursos jogam o filme em um registro estético demais e emocional de menos.<

Talvez a maior qualidade de Eu matei minha mãe resida justamente em conseguir um meio termo entre o emocional e o estético. O jovem Xavier Dolan, que aos 20 anos dirigiu, escreveu e protagonizou o longa, mescla com cuidado um tom melancólico com uma narrativa vigorosa, fazendo bom uso de recursos já desgastados por esse cinema dito “moderno”: câmera lenta, edição picotada, registro de depoimentos confessionais em preto & branco, textos transcritos na tela etc.

Por um lado, temos todas essas estratégias narrativas que atraem um público mais jovem e dão ao longa uma cara mais “anos 2000”, digamos assim. Mas de outro, temos uma trama bem construída e que exala honestidade, principalmente em razão do olhar um tanto ingênuo que Dolan atribui ao conturbado relacionamente entre mãe (Anne Dorval) e filho (Dolan). É esse olhar ingênuo, mas sincero, que impede que o filme se afunde em clichês e nos faça acreditar nessa história de desentendimentos.

“Eu matei minha mãe” é, na verdade, um longa sobre a dificuldade de comunicação. Não é um tema novo, ainda mais quando essa dificuldade parte das diferenças entre gerações de pais e filhos (Juventude Transviada, nos anos 1950, já levantava essa questão). A abordagem também não é inédita e, dos anos 1990 para cá, vários outros filmes construíram sua fama graças a uma roupagem narrativa mais pop (Trainspotting é um bom exemplo).

Mas Dolan sabe conduzir seu filme de modo poético sem soar superficial ou forçado. Talvez ele peque um pouco na construção dos dois personagens principais, exagerando na infantilidade da mãe e do filho e no modo agressivo que ambos se relacionam. Um pequeno porém que não impede que “Eu matei minha mãe” funcione como um belo exercício de olhar sobre o velho conflito de gerações.

Obs: o novo filme de Dolan, Les amours imaginaires, está na programação do Festival do Rio e da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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