Cinema ou teatro? Eis a questão.

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Claro que cinema. Me adiantaria sem nem mesmo pensar direito na pergunta. Sempre gostei mais da arte audiovisual do que da arte milenar do teatro. Entre preconceitos e falta de informação, opto pela sétima arte, a arte da montagem, dos enquadramentos, da junção entre imagem e som. Nunca fui muito aberto ao teatro, seja pelo total desconhecimento da linguagem, seja pela falta de paciência para a dramaturgia ou atuações impostadas. Sempre preferi ver um filme ruim a uma peça boa.

Esclarecimentos à parte, recentemente tive uma boa experiência teatral e uma ida frustrante ao cinema. De um lado, um filme de terror meia boca de pouco mais de uma hora; de outro, uma montagem de três horas de duração, mas que tocou fundo na alma.

A Casa é o típico filme de terror que tenta, de alguma forma, explorar as potencialidades do dispositivo cinematográfico para esconder a fragilidade da trama. Supostamente filmado em um plano sequência, o longa segue a linha de produções como A Bruxa de Blair, Cloverfield, Atividade Paranormal para não apenas criar tensão, mas, de certa forma, discutir modos de se fazer cinema.

A fórmula funciona porque o gênero de terror parece ser o mais propício a experimentações, já que parte de sua graça depende inteiramente da construção da mise en scène. Nisso A Casa acerta. O diretor Gustavo Hernández sabe criar tensão por meio de enquadramentos e usa, inicialmente, com certa propriedade o recurso de filmagem em tempo real, além de aproveitar a pouca iluminação criada pela utilização de um cenário escuro, a tal casa (mal-assombrada) do título.

Mas tudo cai por terra a medida em que os recursos dispensados pelo diretor parecem existir apenas para tentar esconder a falta de lógica do roteiro, tirando o foco da absurda reviravolta que põe tudo a perder. A própria ideia de filmagem em tempo real é desperdiçada a partir do momento em que a pouca duração do longa coloca em xeque a verossimilhança do universo retratado. O plano sequência se revela assim apenas um recurso estético gratuito, passando longe de uma utilidade narrativa.

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Se por um lado, um filme de menos de 1h e meia pode entediar, uma montagem teatral de cerca de três horas surpreende e agrada. Longe de buscar inovações estéticas e de linguagem, coisas que outras montagens de Felipe Hirsch, da Sutil Companhia de Teatro, de Curitiba, buscavam (“Cinema”, por exemplo), Trilhas Sonoras de Amor Perdidas é uma peça que procura estabelecer um contato emocional com a plateia por meio de canções e situações vividas pelos personagens. A montagem narra, de modo não-linear, a relação entre um rapaz e uma moça que se conectam graças à paixão pela música.

Mesmo que o verdadeiro desfile de canções pop (David Bowie, Big Star, Nico, Rolling Stones, The Pretenders, Nirvana, The Cure…) ajude na apreciação do espetáculo, são o texto de Hirsch e as atuações de Guillherme Weber e Natália Lage a grande força da montagem. As referências pop, as fitas (ou CD-R, playlists e mixtapes) gravadas para impressionar alguém e os dramas dos jovens adultos causam identificação imediata.

A montagem poderia ser mais enxuta, com menos referências, é verdade. O fim do espetáculo merecia um desfecho mais forte e bem amarrado. Mas nada que comprometa o resultado que desperta sorrisos e deixa lágrimas dos olhos. Para alguém que nunca foi muito afeito a teatro, se abrir assim para uma peça tão longa (a pretensão do espetáculo está toda na duração excessiva), já um avanço e tanto.

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