Melancolia

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Poucas vezes o fim do mundo foi retratado de uma maneira tão bela quanto em Melancolia, novo filme do polêmico diretor dinamarquês Lars Von Trier. Fazendo uso do habitual talento para compor imagens e sons com extrema beleza e cheios de significação, o cineasta deixa de lado a narrativa dura e difícil do anterior “Anticristo” e aposta em uma condução mais leve e palatável.

Não que o diretor tenha aberto mão de sua proposta que visa sempre mexer e incomodar o espectador. Nada disso. Mas, diante de sua obra, Melancolia se junta a “Dançando no Escuro” como um trabalho mais acessível, ainda que nem todo mundo pareça embarcar na viagem sensorial e lírica do cineasta.

O filme começa com a já tradicional câmera lenta do diretor, com belos planos quase estáticos resumindo o que veremos pela frente. Sim, Von Trier não faz questão de deixar surpresas ao espectador e anuncia logo de cara o fatídico destino do planeta Terra em sua produção apocalíptica. O mais interessante é que, mesmo sabendo o destino dos personagens, “Melancolia” é tenso e prende a atenção.

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Dividido em duas partes, como capítulos em um livro, outra característica comum ao formalismo de Von Trier, o filme foca suas lentes na relação entre duas irmãs, que guiam nosso olhar ao longo do filme. Primeiro, acompanhamos o drama de Justine, que recém-casada, não consegue disfarçar a insatisfação com a vida. Com a câmera na mão e cortes pouco convencionais, que dão um ritmo quebrado ao longa, “Melancolia” parece um primo distante de “O Casamento de Rachel”, de Jonathan Demme.

A segunda parte, mais lenta e densa, deixa de lados a condição quase depressiva de Justine (muito bem defendida por uma Kirsten Dunst sem pudores) e assume o tom angustiado de Claire (Charlotte Gainsbourg). Casada e mãe de um filho pequeno, a personagem, antes sóbria e contida, mostra sua fragilidade e desespero ao lidar com a possibilidade do planeta Melancolia se chocar com a Terra.

Usando o fim do mundo como pano de fundo, “Melancolia” explora temas desde a acomodação diante do inevitável ao incômodo e instabilidade emocional que o fim anunciado pode causar. Metáforas estabelecidas, Von Trier brinda o público com um longa estética e formalmente maduro, compondo cenas de uma plasticidade impar e emocionante, ainda que diferente do registro mais melodramático ao qual estamos acostumados. Não deixa de ser um clichê dizer que o filme não é para todos os públicos, mas é o mais próximo que Von Trier pode chegar de uma plateia mais abrangente.

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