Dois lados de Madonna

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Não deixa de ser surpreendente que Madonna ainda seja uma artista relevante nos dias de hoje. Em tempos de consumo rápido e fama passageira, a cantora, atriz, diretora e sei lá mais o quê ainda consegue se manter em voga, seja pelas polêmicas ou pelos trabalhos, em um mercado cada vez mais poluído de gente. Em tempos de Lady Gaga, Kety Perry, Rihanna e outras tantas musas pré-fabricadas que mudam de figurino, peruca e estilo musical conforme a maré, Madonna ainda é a rainha, mesmo com cerca de 30 anos de carreira nos ombros e já tendo passado dos 50 anos.

Nesse tempo, ela já fez de tudo um pouco e bebeu nas mais diversas referências musicais, ditando moda e virando modelo a ser seguido. Hoje, depois de tanto tempo na batalha, ela pode não mais inovar em postura, polêmicas ou tendências da música pop, mas ainda assim se mantém no topo. Seu mais recente trabalho, o 12º álbum da carreira, MDNA, é a prova disso. O disco pode não trazer a cantora ousada de Like a Prayer e Erotica, ou a experimental de Ray of Light, seus melhores discos, mas é um álbum coeso que tem seus momentos de brilho.

Se os primeiros singles, a equivocada “Give Me All Your Luvin´” e a genérica “Girl Gone Wild”, prenunciavam um tremendo fracasso, senão comercial, artístico, MDNA vazou, foi lançado e acalmou os fãs. O álbum tem suas fraquezas, quebras de ritmo e sonoridade genérica. Mas são os momentos brilhantes que ficam na cabeça. “Gang Bang”, por exemplo, entra direto na lista das melhores canções da artista. Com uma letra safada e batidas eletrônicas empolgantes, a música é a melhor do disco e perfeita para as pistas.

Na mesma linha de qualidade, “Turn Up the Radio” é uma música pop precisa e cheia de ginga, dessas poucas que elevam a alma e merecem ser cantadas junto. “I´m Addicted” é outra música de balada que funciona muito bem regada a tequilas e suores no meio da multidão. “Some Girls”, “Superstar” e “I Don´t Give A” mantém a pegada pop e são eficientes. 

Um dos clichês das cantoras pop é investir em baladinhas. Madonna não foge à regra e entrega a bela “I Fucked Up”. Outras baladas, “Falling Free” e “Masterpierce”, destoam do restante do álbum, mas são corretas.

Nesse mix de ótimas canções e outras nem tanto (“Beautiful Killer” parece uma releitura piorada de “Die Another Day”, “B-Day Song” é bobinha e passa batida e “Best Friend” dispara como a mais fraca do trabalho), MDNA ganha peso com letras como “I´m a Sninner”, que de certa forma sintetiza o talento da cantora para a confusão, ou com Nicki Minaj decretando em algum momento: “There’s only one Queen, and that´s Madonna”.

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W.E

Se na música, a cantora Madonna não precisa provar mais nada a ninguém há muito tempo, no cinema, a história é outra. A atriz Madonna nunca foi respeitada e suas incursões cinematográficas raramente foram bem sucedidas. O caminho da artista como diretora parece seguir o mesmo rumo. Depois de adiar por semanas uma ida ao cinema para conferir seu segundo trabalho (o primeiro, eu não vi) atrás das câmeras, o ambicioso W.E, a conclusão é que ela é uma diretora com muito a aprender.

O filme foi rechaçado, cuspido e mijado pela crítica sem pena. Existem razões para tal fúria. Madonna patina em insegurança e demonstra uma preocupação excessiva em dar um ar estético demais ao longa, deixando de lado a coerência narrativa. Imbuída em criar uma obra suntuosa, relevante e visualmente acachapante (os figurinos são deslumbrantes, a encenação é caprichada, os movimentos de câmera são elegantes e a trilha sonora bem utilizada), a diretora Madonna cria vários momentos de absoluto constrangimento típicos de alguém que não quer assumir a inexperiência.

W.E é um filme complexo, e esse talvez seja seu grande defeito. Madonna não sabe lidar com a nuanças da obra e, na maioria das vezes, soa arrogante e aposta pesado no clichê. A produção já começa errada ao se dividir em duas linhas temporais. Essas idas e vindas no tempo são amarradas por uma edição que quer a todo momento criar uma ligação entre elas, o que enfraquece o conjunto e vai deixando o filme cansativo à medida em que o recurso vai se esvaziando.

A diretora também era ao apostar em uma abordagem didática que explica da forma mais simples possível o que não é dito na tela. Enquanto a trama do passado (que relata o envolvimento do futuro rei do Reino Unido com uma plebeia americana e casada) é conta por meio de elipses e mais elipses que pouco contribuem para seu entendimento; no presente, temos uma história pouco convincente sobre uma mulher presa a uma casamento fracassado e que se vê envolvida com um segurança russo um tanto intelectual demais para ser convincente.

O resultado é um filme frouxo. A suntuosidade da encenação se perde diante da superficialidade narrativa. Os acertos estéticos são ofuscados pelas atuações fora de tom. Se no passado, temos uma Wallis (Andrea Riseborough) exagerada, com uma impostação teatral e forçada disparando frases feitas de modo afetado; no presente, o espectador se depara com uma Wally (Abbie Cornish) apagada e sem vida, com uma voz doce e postura insegura. Nenhuma das duas convence, e tudo a volta delas parece ser charmoso, elegante, luxuoso e sem propósito.

Mal comparando, o filme lembra um pouco a estreia do estilista Tom Ford na direção. A diferença é que todo o capricho visual de A Single Man é amparado por uma trama com estofo sobre perda e solidão. Já W.E aposta na beleza pela beleza. 

Se na música, Madonna vai muito bem, obrigada; no cinema, a artista ainda tem muito a aprender. MDNA e W.E são dois pontos distintos na carreira de uma artista multimídia que parece que ainda tem muito a dizer, mesmo que não seja da melhor maneira possível.

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