Há dois anos…

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… eu desembarcava em São Paulo com algumas malas e sonhos. Mais do que sonhos, na verdade, eu buscava voltar a sentir sensações que tinha sentido antes ao visitar a cidade e que não mais sentia na minha cidade de origem, Fortaleza (que nem minha cidade de origem é, mas foi onde passei a maior parte da minha vida!). A sensação de vivenciar uma vida mais cultural que sempre tanto me agradou. A sensação de pertencimento ao andar esbarrando em um monte de gente pelas ruas cheias de uma das maiores metrópoles do mundo. A sensação de crença de estar mais próximo de pessoas que levam um estilo de vida mais parecido com o meu. No meio do recheio de todas essas vontades clichês, a maior de todas: fugir de mim mesmo ao achar que, mudando de cidade, mudaria por tabela meu modo meio torto de ver o mundo e encarar as coisas.

Dois anos depois, já voltei a viver inúmeras vezes a sensação que senti no belo show do Radiohead, na Chácara do Jockey, lá em 2009, quando me dei conta que, realmente, talvez eu fosse mais feliz em São Paulo do que em qualquer outro lugar (e foi voltando no avião, ao som de “Reckoner” e “Weird Fishes/Arpeggi”, que caiu a ficha de que era hora de realmente vir para Sampa; cerca de um ano depois, cá estava eu). Dois anos depois ainda me assusto ao fazer uma baldeação na Sé ou nas estações Consolação e Paulista e me deparar com um mar de gente que parece não ter fim. Dois anos depois, efetivamente, conheci algumas pessoas bacanas e que levam, sim, um estilo de vida mais próximo do meu. Infelizmente, depois de dois anos, ainda não consegui fugir de mim mesmo e continuo pensando meio torto e encarando as coisas da forma mais complicada possível. Culpa minha, não de São Paulo!

Hoje, exatamente hoje, estou na dúvida se dois anos é pouco tempo, ou se muito tempo já passou. Nesse pouco ou muito tempo, descobri, claro, que a São Paulo das visitas é bem diferente da São Paulo do dia a dia. Hoje, a cidade, antes confusa e que me deixava com receio, já tem uma lógica geográfica na minha cabeça, e isso me deixa extramete feliz, ainda que eu circule bem pouco por várias regiões dela. Hoje, a Metrópole, antes contemporânea e moderna, ganhou ares de cidade conservadora e reacionária que, às vezes, assusta.

Mas a questão é que, com pouco ou muito tempo, a impressão é que já fiz e vivi um monte de coisas por aqui. E o melhor, ainda tenho a impressão/esperança que tem muita, muita coisa a ser feita e vivida. Acho que é isso que mais me agrada atualmente em São Paulo. O emprego bacana não veio e, hoje, trabalho porque tenho que trabalhar e pagar contas. Aquela pessoa legal também não deu as caras, mas o sexo fácil em São Paulo serve como tapa buraco para os vários vazios existenciais. O dinheiro também não veio. Pelo contrário, ele foi embora, porque São Paulo é muito, muito cara. Mas tudo bem, porque, para o bem ou para o mal, São Paulo sempre deixa as portas abertas para possibilidades.

E, talvez, essa tenha sido a grande razão deu ter deixado tudo para trás (família, amigos, empregos, conforto) em Fortaleza e vindo para cá. Fortaleza já deu o que tinha que dar (boas coisas, é verdade), mas fechou às portas para as possibilidades que eu estava/estou/estarei almejando sempre.

Entre shows internacionais, festivais de música, mostras de cinema, exposições bacanas, conversas banais em bares da vida, noites dançantes na pista do Netão, sexos casuais, freelas e empregos, o que mais me orgulha é saber que fiz tudo isso enquanto “cidadão paulistano”, morando e vivendo nessa cidade que pode ser muito, muito cão (Qualquer um pode fazer isso em um final de semana em São Paulo, na verdade. Vários amigos de Fortaleza, vira e mexe, fazem. Mas, desculpem-me, morando aqui, com CEP fixo, o gostinho é diferente).

Para quem com mais de 30 anos, já deixando a juventude para trás e sem muito ânimo para riscos, chegou aqui sem eira nem beira, sem lenço e sem documento, sem nada realmente concreto em mãos, a não ser sonhos e possibilidades, morrendo de medo de fracassar, ficar sem grana e ter que voltar com o rabinho entre as pernas, é muita coisa.  

Em pleno inferno astral e ouvindo Sigur Rós (lindo como sempre) como trilha, não sei se São Paulo será meu destino final, mas é hora de assumir que minha decisão de vir para cá não foi um erro e deixar de pensar nas coisas que ficaram para trás. É hora de, finalmente, realizar que aqui é onde eu moro, aqui é onde eu trabalho e aqui é, exatamente, onde eu quero que outras coisas boas aconteçam.

PS: Mil perdões pelo texto piegas e confuso, cheio de “muitos” e palavras repetidas. Em breve, voltaremos a programação normal de textos sobre coisas interessantes: cinema, música, seriados etc. Enquanto não escrevo nada novo aqui, comecei a colaborar com o portal Umbigo das Coisas e já tem dois textos meus lá: Jovens Adultos e Beleza Adormecida.

PS1: O Pensamentos FabioFreireanos, alcunha dada por uma amiga, nasceu logo quando vim para São Paulo. Ele nunca foi, nem nunca será, uma obrigação ou algo que eu realmente leve a sério. Mas, enfim, ele é um bom fruto da minha vida em Sampa.

2 pensamentos sobre “Há dois anos…

  1. Eu imagino assim: estamos num teatro bem grande, cujo palco é oculto por aquelas cortinas vermelhas de tecido nobre que vão se abrindo lentamente. Elas se abrem, você aparece lindo como sempre com calça jeans e uma dessas camisetas fashion de malha e tênis vermelho. Sozinho no meio do palco começa a interpretar esse monólogo lindo – “Em pleno inferno astral e ouvindo Sigur Rós (lindo como sempre) como trilha, não sei se São Paulo será meu destino final, mas é hora de assumir que minha decisão de vir para cá não foi um erro e deixar de pensar nas coisas que ficaram para trás. É hora de, finalmente, realizar que aqui é onde eu moro, aqui é onde eu trabalho e aqui é, exatamente, onde eu quero que outras coisas boas aconteçam”. – Há momentos em que estas certezas você diz com algumas lágrimas quase imperceptíveis em seus olhos. É bonito. A platéia composta toda por amigos seus se emociona demais. Eu estou nela. A emoção é com o texto (porque sempre o que se escreve no impulso da alma pode trazer muitos adjetivos, mas emociona sempre) e depois, porque felizes com as suas certezas. Há tanto eu espero por elas! para você tentar, de verdade, desse seu jeito meio torto, ser feliz. Você conclui o monólogo e nós – clap, clap, clap – as cortinas se fecham. A platéia emocionada e você, por trás das cortinas, também. Elas reabrem e já está lá você todo recomposto para iniciar o segundo ato dessa vida que escolheu. O figurino está diferente: paletó preto aberto, uma gravata fina também preta sobre uma camisa branca e os tênis vermelhos. De verdade, de verdade, a gente nunca se perde, senão não nos saberíamos perdidos.
    De todos os textos escritos aqui sobre cinema e outras coisitas mais, este foi o que mais me emocionou. Fala de um dos protagonistas importantes demais para mim: you. Feliz o resto dos muitos anos por ai.Beijos.

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