Amantes Eternos

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Os vampiros são criaturas bastante banalizadas pelo cinema, então, em pleno 2014, fica difícil explorá-los por meio de uma abordagem diferente. Em Amantes Eternos, o cineasta Jim Jarmusch não mostra nenhuma faceta nova das criaturas noturnas que fogem da luz e têm medo de alho e estacas de madeiras, mas pelo menos opta por um ponto de vista menos glamourizado dos vampiros. Deixando de lado o sexo e a violência tão comuns na representação das criaturas, Jarmusch prefere apostar em um viés mais existencialista e, apenas um tantinho, menos clichês desses seres imortais.

É a partir dessa escolha que “Amantes Eternos” pode agradar e desagradar na mesma dose. Apesar de ter Tilda Swinton e Tom Hiddleston como protagonistas, os vampiros do longa-metragem nada têm de sexy, e a violência, quando acontece, é toda sugerida. Jarmusch prefere voltar suas lentes para os questionamentos que fazem parte da trajetória de Eve e Adam, dois serem imortais que gostam de dormir e consomem seu tempo entre obras literárias, música e drinks de sangue conseguidos da forma mais limpa e segura possível. Ela parece ser bem resolvida em relação à sua condição e posição no mundo. Já ele, não disfarçando o tédio, chama os humanos de zumbis, compra guitarras raras e pensa em suicídio. “Amantes Eternos” tem assim um ritmo bem lento e próprio, quase emulando o tédio e a preguiça existencial dos personagens.

Mas se o filme corre devagar, Jarmusch sabe pelo menos como embalar essa sua proposta existencialista e intelectual de como os vampiros vivem no século 21, entre seus conhecimentos milenares e conversas via Facetime. Além da trilha sonora caprichada, que reflete o gosto musical desses vampiros cultos, o diretor capricha na direção de arte, fotografia e no modo plástico como filma algumas cenas (a introdução dos personagens, a catarse dos mesmos depois de consumirem sangue e os passeios noturnos de carro pelas ruas de Detroit se destacam).

O resultado dessa dicotomia entre narrativa e embalagem é, em alguns momentos, morno, mas Jarmusch apresenta uma série de ideia interessantes. Eve e Adam são belos e lânguidos, mas possuem uma aparência desglamourizada e quase alheia ao mundo, em uma representação bem parecida com estrelas de rock, seus óculos escuros e cabelos desgrenhados. Apesar de se lamentarem pela insignificância dos humanos, os dois possuem uma postura quase ética em relação à vida, demonstrada pela forma asséptica como consomem sua fonte de “vida”, o sangue. A preocupação que ambos têm com as impurezas sanguíneas nos dias de hoje também reflete e justifica essa postura, traçando um paralelo com o HIV e outras doenças (o seriado “True Blood” já faz isso há tempos, mas de modo bem menos sutil).

Deslumbrado demais com essa temática e o tédio de seus personagens, Jarmusch erra a mão na lentidão com que conduz o longa ou na forma desleixada e apressada em que insere a irritante Mia Wasikowska na trama, apenas para causar uma ruptura até então inexistente na trama. “Amantes Eternos” se distancia dessa forma de um terreno mais sexual e/ou de ação e mesmo do universo do horror, mas perde na comparação com outros longas que lançam um olhar mais existencial sobre a existência dos vampiros. O datado “Fome de Viver”, o suntuoso “Entrevista com o Vampiro” e clássico “Drácula de Bram Stoker” são alguns exemplos de filmes bem mais resolvidos nesse ponto do que a obra de Jarmusch.

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