Edward Norton: a trilogia da prisão

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Edward Norton surgiu praticamente como um Deus na metade dos anos 1990. De completo desconhecido a um dos grandes atores da sua geração, ele já começou trabalhando com diretores renomados como Woody Allen, Milos Forman, David Fincher e por aí vai.

Mas em algum ponto dos anos 2000, ele ficou mais conhecido por seu temperamento difícil do que propriamente por seus filmes. Mesmo fazendo parte de grandes projetos, Norton foi perdendo a relevância e fez várias produções que passaram batidas (“O Vale Proibido”, “Força Policial”, “Irmãos de Sangue”, “Homens em Fúria”, entre outros).

Apesar de ótimas participações recentes em “Moonrise Kingdom” e “O Grande Hotel Budapeste” e da indicação ao Oscar por “Birdman”, as melhores atuações de Norton são mesmo as do início de sua carreira. Três delas, coincidentemente, giram em torno da prisão de seus personagens.

1996 foi o ano da revelação de Edward Norton. Ele estreou no cinema com nada menos que três filmes: um musical de Woody Allen (“Todos Dizem Eu te Amo”), uma polêmica cinebiografia dirigida por Milos Forman (“O Povo Contra Larry Flint”) e o suspense de tribunal “As Duas Faces de um Crime”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

As Duas Faces de um Crime é um suspense bem típico dos anos 1990, imponente, com uma edição menos frenética do que aquela que a MTV já propagava na época e uma reviravolta no final. Dirigido com classe por Gregory Hoblit, o filme não traz nada de novo e segue a fórmula de filmes de tribunal com louvor. Mas Hoblit acerta no elenco (Richard Gere, Laura Linney, Alfre Woodard e Frances McDormand) e a história é envolvente o suficiente para prender a atenção do espectador.

Norton interpreta um coroinha ingênuo e gago suspeito de matar violentamente um arcebispo. Grande parte do filme gira em torno da relação de Gere, advogado de defesa do coroinha, e de Norton, e da investigação do crime. O longa perdeu um pouco de relevância com o tempo, mas tem como maior mérito ter revelado o talento de Norton.

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Dois anos depois, Edward Norton recebeu mais uma indicação ao Oscar por seu retrato brutal de um neonazista assassino em A Outra História Americana, filme poderoso e polêmico de Tony Kaye, que nunca mais dirigiu nada relevante.

Indo e vindo no tempo e se alternando entre uma fotografia colorida e em p&b, Tony mostra a ascensão e queda de um neonazista furioso com a decadência norte-americana. O personagem de Norton mata dois negros (a cena da calçada é uma das mais violentas que o cinema já mostrou) e come o pão que o diabo amassou na prisão até se redimir e ver seu irmão mais novo seguindo seus passos.

Norton cria um personagem ao mesmo tempo assustador e carismático (a cena do confronto em família durante um jantar é assustadora), e o filme segue um caminho trágico e cheio de desesperança. Um dos longas mais impactantes da década de 1990.

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Em A Última Noite, o personagem de Edward Norton ainda não foi preso, mas o filme narra sua última noite antes de ir para a prisão por sete anos por tráfico de drogas. Também usando recurso de flashbacks, assim como “A Outra História Americana”, a produção de Spike Lee mostra a despedida do personagem principal de seu pai, amigos e namorada.

Um dos melhores trabalhos de Lee, que quando quer acerta em cheio, o filme é melancólico e impactante e um dos primeiros filmes a abordar a tragédia da queda das Torres Gêmeas, quase personagens do longa. Lee filma com cuidado, usando seu esmero estético e marca registrada (uma câmera estática que gruda em personagens em movimento) e abrindo espaço para todo o elenco brilhar em várias cenas memoráveis (Barry Peper, Philip Seymour Hoffman, Anna Paquin, Rosário Dawson, Brian Cox).

Edward Norton foi solenemente ignorado por todos os prêmios, mas entrega uma de suas melhores atuações. Seu monólogo de ódio vomitado na frente de um espelho é de uma sinceridade alarmante. Já o filme, é quase a alegoria da desolação que marcou os EUA no início dos anos 2000.

Outros papéis e filmes de destaque na carreira de Edward Norton são o cultuado “Clube da Luta”, o pouco visto drama de época “O Despertar de uma Paixão” e a comédia romântica (dirigida pela próprio ator) “Tenha Fé”.

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