Big Little Lies

A HBO se superou mais uma vez. Hoje muito se fala na qualidade das séries da Netflix, mas foi a HBO a responsável pelo nascimento da chamada “época áurea da TV”. Foram séries como “Oz”, “The Sopranos”, “Sex and the City” e “Six Feet Under” que abriram o caminho para abordagens e temáticas mais adultas e sérias na televisão, atraindo atores e diretores de renome para a então relegada telinha.

O resultado dessa abertura pode ser vista em uma minissérie como Big Little Lies, que, em apenas sete episódios, traz o que de melhor a televisão pode fazer atualmente: uma história cheia de nuanças, um roteiro absurdamente brilhante, direção e edição primorosas e um elenco matador.

Baseada no best seller homônimo da australiana Liane Moriarty e adaptada por David E. Kelly (do sucesso “Ally McBeal e marido da Michelle Pfeiffer), a minissérie mostra de forma absurdamente realista a realidade de cinco mães envolvidas em uma narrativa que mistura bullying, violência doméstica, traição e assassinato em uma pequena e rica cidade qualquer dos Estados Unidos.

Madeline (Reese Whiterspoon) é uma mulher mimada que se mete na vida de todos e vende uma imagem de perfeição, mas se sente culpada por não amar tanto o segundo marido e traí-lo com um diretor de teatro. Celeste (Nicole Kidman) tem um marido lindo e dois filhos gêmeos, vive em uma casa enorme à beira-mar e, aparentemente, leva uma vida de princesa, mas é violentada constantemente pelo cônjuge. Jane (Shailene Woodley) é uma jovem mãe solteira e nova na cidade que esconde um segrego em relação ao pai do seu filho. Cercando as três, temos ainda a mãe empresária e bem sucedida Renata Klein (Laura Dern), odiada por não se dedicar apenas à filha, e Bonnie (Zoë Kravitz), esposa mais jovem e esotérica do ex-marido de Madeline.

A minissérie começa mostrando essas cinco mulheres envolvidas em uma caso de bullying na escola dos filhos. Ziggy, o filho da novata Jane, é acusado de enforcar a pequena Amabelle, filha de Renata Klein. A partir desse incidente, o espectador é jogado em uma rede de mentiras, dissimulações e hipocrisia que envolve as cinco e os seus maridos.

Da abertura simples e certeira à fotografia que contrasta a tensão da trama com a placidez das imagens, passando pela trilha sonora de rock que dita o ritmo ágil da edição, a parte técnica da minissérie é perfeita. A estrutura fragmentada e a narrativa em flashback começam mostrando que aconteceu um assassinato, mas sem revelar quem matou ou quem morreu (algo bem similar à braslleira “O Rebu”), criando assim um crescendo de suspense que explode no episódio final. A estratégia é óbvia, mas a execução perfeita redime qualquer falta de originalidade.

Parte do mérito do sucesso da minissérie recai nos ombros do diretor canadense Jean-Marc Vallée. Mais conhecido por seus trabalhos no cinema (“Clube de Compras Dallas” e “Livre”), “Big Little Lies” é a grande obra-prima do diretor. Responsável pela direção dos sete episódios, Vallée não apenas estabelece a tensão como também amarra o roteiro fragmentado e cria cenas ora belíssimas, ora poderosas, entregando um trabalho envolvente e relevante, seja na abordagem assustadora da relação entre as mães ou no modo como lança o olhar sobre um tema delicado e, infelizmente, extremamente atual: a violência doméstica.

Mas a minissérie é mesmo das atrizes. Reese Whiterspoon é peça central da atração e apaga qualquer dúvida sobre o seu talento. Interpretando uma personagem extremamente complexa, a atriz consegue despertar empatia mesmo quando a personagem é controladora e mesquinha. Ela é dura e vulnerável, extrovertida e melancólica, tudo ao mesmo tempo.

Nicole Kidman também prova que é capaz de tudo por uma boa atuação. A atriz não tem o menor pudor e apanha do marido, faz sexo virtual via Skype e demonstra toda a fragilidade e complexidade dessa mulher nas cenas com a terapeuta, um desses momentos mágicos em que tudo está no lugar certo (direção e roteiro delicadíssimos e atores em chamas, em especial Robin Weigert, o suporte perfeito para Kidman brilhar).

Ainda que a série seja mesmo de Whiterspoon e Kidman, a direção e o roteiro ainda abrem espaço para que Woodley, Dern e Kravitz desenvolvam suas personagens. O resultado é um trabalho belíssimo de cinco atrizes em sintonia e que mostra que, sim, existe mesmo vida inteligente na televisão e histórias femininas e feministas podem, sim, render verdadeiras obras-primas audiovisuais. No final das contas, “Big Little Lies” é sobre a mais atual das palavras, sororidade.

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